quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A maldade nossa de cada dia

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Vejam! O braço do Senhor não está tão curto que não possa salvar,
e o Seu ouvido tão surdo que não possa ouvir.
Mas as suas maldades separaram vocês do seu Deus;
os seus pecados esconderam de vocês o rosto dele, e por isso Ele não os ouvirá.
Pois as suas mãos estão manchadas de sangue, e os seus dedos, de culpa.
Os seus lábios falam mentiras, e a sua língua murmura palavras ímpias.
Ninguém entra em causa com justiça, ninguém faz defesa com integridade.
Apoiam-se em argumentos vazios e falam mentiras;
concebem maldade e geram iniquidade.
Isaías 59:1-4


Há um pensamento circulante entre nós que, nas dificuldades que enfrentamos para realizarmos um projeto, consola-nos ao recordar que grandes edifícios são construídos com pequenas pedras.

Contudo, grandes edifícios não figuram aqui apenas as boas obras. Cabe perfeitamente o uso dessa expressão para ilustrar a grandeza da maldade em nós contida e manifesta nos pequenos gestos de cada dia.

Embora a violência extrema, como roubo, assassinato, estupro, tortura, discriminação, entre outros, seja um reflexo perfeito e intenso da ausência do Senhor nos corações e, portanto, expõem nitidamente o afastamento do homem do seu Criador, os versos de Isaías 59:1-4 denunciam que pequenas coisas como mentiras, murmurações, hipocrisia e egoísmo também constroem uma grande barreira entre nós e Deus.

Expressões como “obras más”, “pensamentos maus” e “injustiça” podem ser detectada nos quatro versos seguintes do mesmo capítulo. E por aqui também percebemos que falsidade, inveja, altivez, exclusivismo, e tantos outros “pecadinhos” que cometemos no dia-a-dia estão, na verdade, dentro da mesma hierarquia do adultério, da prostituição, do homossexualismo, da drogadição, e de tudo mais o que podemos denominar pecado.

A mulher protagonista no livro dos Cânticos, depois de narrada uma linda paisagem em floradas, de renovo primaveril após um rigoroso inverno, impõe que sejam apanhadas as “raposinhas que estragam as vinhas”, pois causam danos às vinhas em flor. [1]

As grandes obras malfeitas, na verdade, é o que todos sempre conseguem ver, tentemos ou não escondê-las. E, na verdade, também já são esperadas. Contudo, as pequenas obras, o corriqueiro, o trivial, essas são as que conseguimos esconder das pessoas, mas não de Deus. Esses são os “probleminhas” com as quais nós devemos lidar diariamente, mas que comumente ignoramos, desprezamos, evitamos.

Ocorre que o montante dessas “coisinhas pequenininhas” resulta numa montanha de lixos espirituais erguida bem dentro de nós. Uma montanha tão grande que, embora não possa ser vista pelos nossos olhos carnais, tampa completamente a visão que temos de Deus, e a pessoa de Cristo que outras pessoas deveriam ver em nós.

Segundo Isaías, não eram somente as mãos inteiras manchadas de sangue, mas as pontas dos dedos manchadas de culpas [2]. Não eram somente as grandes obras más realizadas pelas nossas por nossas mãos diante dos homens, mas a maldade revelada a conta-gotas pelas atitudes, escondida em nossas almas.

Um pecadinho aqui, outra escorregadela ali, mais uma quedinha acolá, e de repente já não conseguimos mais enxergar o Senhor, de tanto nos convencer que assassinos e prostitutas são pecadores dignos do inferno enquanto nós, que não matamos pessoas com armas embora o façamos com a língua, ou que não vendemos nossos corpos mas negociamos nossa caráter, integridade e fé, supostamente somos melhores que eles.

Uma muralha de pecados que faz separação entre nós e o nosso Deus, é o que esconde o Seu rosto de nós, e que encolhe os Seus braços a ponto de Ele não mais nos abençoar. Uma muralha erguida não com rochas que impressionam pela sua grandeza, mas com pequenas pedrinhas que nós conseguimos – e erguemos – voluntariamente com nossas próprias mãos. Uma montanha tão imensa que esmagaria qualquer possibilidade de esperança, não fosse pela graça divina que nos concede, perante o nosso arrependimento, o perdão de Deus.

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[1] Cânticos 2:15
[2] Isaías 59:3