terça-feira, 8 de outubro de 2013

E, quando pelo fogo...


Imagem: O quarto homem na fornalha (Daniel 3). Disponível na Internet.

“Quando você andar através do fogo, você não se queimará;
as chamas não o deixarão em brasa.”
Isaías 43:2


Hoje pela manhã, enquanto eu ia para o trabalho, vi um carro em movimento pegar fogo com três pessoas dentro. Era um veículo relativamente velho, que incendiou-se repentinamente.

A mulher sentada no banco do passageiro ficou desesperada, pois as maiores labaredas estavam do lado dela. Com certa dificuldade, o motorista conseguiu retirá-la de lá pela sua porta, enquanto dois outros motoristas usavam seus extintores tentando controlar as chamas. A criança que estava no banco de trás foi retirada imediatamente após a mulher.

Das pessoas que estavam no ponto de ônibus, uma parte ficou perplexa com a cena, e a outra correu com medo de uma possível – e bem provável – explosão. Motoristas que estavam em ambas as pistas pararam seus veículos tentando ajudar, até que as chamas foram totalmente apagadas.

Depois de algum tempo, refletindo sobre essa situação impressionante e tensa, encontrei algumas lições para a vida, que certamente me ajudarão a ser amanhã alguém melhor do que sou hoje.

Inevitavelmente, pensei no socorro presente, no livramento oportuno, e na nova oportunidade.

Como é bom ter quem se importa conosco por perto! Pessoas se mobilizaram rapidamente para socorrer aquelas três vítimas, e instintivamente se dividiram em equipes. Uma parte tentava controlar as chamas enquanto outra parte retirava os passageiros.

Creio que aquelas pessoas estavam no lugar certo, na hora exata, e divinamente tomaram a atitude correta.

Imagine só como deve ter sido a mobilização dos céus para que uma pessoa de Deus recebesse um livramento, uma graça, ou ainda um consolo...

Pensei também no descaso com que lidamos com o inferno.

A Bíblia conta em várias passagens sobre esse lugar, inclusive descrevendo-o fisicamente, e uma de suas principais características descritas pelo próprio Jesus foi precisamente a presença de fogo, de muito fogo, de fogo eterno: “E, se o teu pé te escandalizar, corta-o; melhor é para ti entrares coxo na vida do que, tendo dois pés, seres lançado no inferno, no fogo que nunca se apaga” (Marcos 9:45).

Se ficar preso num carro em chamas causa tanta aflição e desespero para o corpo que morrerá e logo se acabará, imagine quão intenso será o sofrimento da alma que passará a eternidade queimando nas chamas do lugar “onde o seu bicho não morre e o fogo nunca se apaga” (Marcos 9:44, 46, 48).

Mas, além disso, eu também pensei – e foi o que mais me deixou impressionada – na sensação de impotência que ficou naquelas pessoas que, como eu, apenas assistiram de longe o triste acontecimento. Quem sabia o que devia fazer, foi lá e fez com ousadia. Outros, como eu, sabiam que ajudariam mais se permanecesse longe.

Não porque eu tenha entrado em pânico como vi algumas pessoas se permitindo estar naquele momento. (Graças a Deus, que tem me ajudado a agir com equilíbrio e razão mesmo em situações tensas como essa.) Mas fica uma acusação no ar, uma impressão que poderíamos ter ajudado quando simplesmente cruzamos os braços e assistimos tudo de longe.

É mais ou menos aquela mesma impressão que temos de sermos fracos, de sermos ineficientes quando circunstâncias vêm nos assolar e não conseguimos ter domínio sobre elas. Geralmente, nos sentimos uns lixo, escórias, seres desprezíveis, seres patéticos.

Mas assim como eu não sei utilizar um extintor – e nem tinha um na minha bolsa –, e assim como eu não tenho força física para puxar uma senhora com cinto de segurança no banco do passageiro para fora de um carro em chamas pelo banco do motorista, e assim também como eu não tenho habilidade nenhuma para lidar com fogo, nem com objetos cortantes, quentes e coisas do tipo, eu também não tenho competências que me gabaritem para resolver certas circunstâncias da minha vida.

E então, em vez de atrapalhar o serviço de Deus, que sempre vem socorrer os Seus amados nem que seja apenas lhes dando o consolo dentro das fornalhas da vida em vez de tirá-los de lá, eu escolho – ou, antes, devo escolher sempre – deixar quem sabe fazer a coisa certa simplesmente fazê-la.

Ocorre que nós, reles mortais, somos assim mesmo: ansiosos, afobados, imediatistas. Mas nem sempre sabemos lidar com as questões que nos afligem. Então, o melhor que temos a fazer, é entrega-las aos cuidados do Deus que conhece suas causas, dinâmicas e desfechos.

Ele conhece os mecanismos mais apropriados para enfrentar as labaredas que muitas vezes se formam e alastram rapidamente para nos consumir, sem permitir que o fogo nos queime e ou que suas chamas ardam em nós (Isaías 43:2).

Se acreditássemos mais nisso, seríamos privados de muitos sofrimentos. Teríamos mais paz em meio às lutas às quais somos submetidos a cada dia. Agiríamos mais com a razão e encontraríamos as saídas corretas com mais facilidade. Teríamos mais experiências pessoais com Deus, porque conseguiríamos enxergar Sua presença nos guardando de danos maiores, de danos eternos.

Seríamos bem mais felizes, porque já não nos sentiríamos tão sozinhos, se tão somente acreditássemos...