terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ele procura pelos que falham...


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“Não esmagará o galho que está quebrado, nem apagará a luz que já está fraca.
Ele agirá assim até que a causa da justiça seja vitoriosa.
E todos os povos vão por Nele a sua esperança.”
Mateus 12:20-21


Tratava-se de um documentário sobre a triste realidade das escolas brasileiras e a desmotivação que tem acometido os professores em geral. Não se tratava de um fator apenas, mas do conjunto de muitos deles, que tornam o fardo da educação formal muito pesado, tanto para professores quanto para alunos.

E então, em meio às cenas de um aluno traquina, que tecia comentários irônicos sobre seu comportamento indisciplinado, uma cursista que assistia ao filme – professora de mais de duas décadas – comentou, com tom de altivez, pensando ter razão: “Professor, alunos desse tipo aí fazem a gente tomar uma antipatia tão grande deles...” (sic)

Honestamente, a frase infeliz dessa educadora(?) faz-nos inevitavelmente questionar: O que uma pessoa que não tem habilidade de lidar com desafios e que facilmente toma antipatia de gente problemática em fase de formação está fazendo na educação?

O caos na educação não é reflexo apenas do desinteresse das famílias ou do descaso dos governos. Tampouco é produto apenas do comportamento insubmisso dos alunos, pertencentes a um contexto atual de violência e libertinagem. É também fruto da irresponsabilidade e da falta de disposição de muitos profissionais que nela estão atuando.

Olhando para a pedagogia de Jesus, eu vejo um pouco daquilo que todo educador deveria ter, a começar pela disposição em lidar com o improvável e abrir-lhe a porta para a oportunidade do que lhe é possível.

Gente indisciplinada, rebelde, nunca foi motivo de desânimo e antipatia para Jesus. Ao contrário: Os piores seres humanos são aqueles por quem Deus tem expressado mais extravagantemente Suas intenções misericordiosas, concedendo-lhes oportunidades a fim de que se voltem para Ele (Romanos 2:3-4).

Quando uma ovelha se desgarrou do rebanho, conta a parábola, o pastor não elogiou as 99 que ficaram e as exaltou em desprezo à ovelha fujona. Antes, acolheu bem as que sabiam se comportar, deixou-as em segurança no aprisco, e foi aventurar-se à procura daquela rebelde que buscou outros caminhos longe do pastor (Lucas 15:1-10). Jesus, a representação real desse pastor, amou tanto os desgarrados do rebanho de Deus, que deu Sua própria vida por aquelas ovelhinhas teimosas (João 10:11). Porque Deus não descarta os que fracassam, mas Ele vai à busca dos fracassados.

Paulo, o homem impiedoso que perseguia os cristãos, não foi desprezado pelo Senhor, mas recebeu Dele graça sobre graça, e teve sua vida preservada pelo Mestre até o momento de ter um encontro pessoal com Jesus. E ali, naquele caminho rumo a Damasco, Paulo entendeu e aceitou o chamado de Deus e tornou-se um dos maiores exemplos a serem seguidos no Evangelho (Atos 9).

Deus não desistiu de Sansão, e deu-lhe uma segunda chance (Juízes 13 a 16). Não desistiu de Pedro, que O negou por três vezes (Lucas 22:54-62), mas amou-o e perdoou-o, procurou-o e abençoou-o, dando-lhe inclusive autoridade como um apóstolo para auxiliar os demais no cuidado sobre o rebanho do Senhor (João 21). Ele não rejeitou os leprosos, nem os doentes, nem os pecadores. E no meio de tanta gente boa e importante, foi para Zaqueu que Ele olhou e com quem Se prontificou a estar. (Lucas 19)

Em Isaías 42:3 lemos que Jesus “não quebrará a cana trilhada, nem apagará o pavio que fumega; com verdade trará justiça” (ACR). Em outra tradução: “Não esmagará um galho que está quebrado, nem apagará a luz que já está fraca. Com toda a dedicação, Ele anunciará a Minha vontade” (NTLH). A justiça de Deus já ocorreu: “Jesus foi entregue para morrer por causa dos nossos pecados e foi ressuscitado a fim de que nós fôssemos aceitos por Deus”, isto é, “Ele foi entregue à morte por nossos pecados e ressuscitado para a nossa justificação” (Romanos 4:25 NTLH, NVI). E a vontade de Deus é “que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”; Sua vontade é que nós sejamos santificados (1Timóteo 2:4; 1Tesssalonicense 4:3). Por isso, Ele não desiste de nós, nem cria antipatia acerca de nós.

Nós é que temos a maldade em nossos corações e desistimos uns dos outros como descartamos o lixo das nossas casas. Jogamos nossas crianças foras, desprezamos nossos velhos cansados, excluímos os menos favorecidos, ignoramos os deficientes, esquecemos momentos conflituosos. Mesmo muitas igrejas, inclusive, agem sem misericórdia e não praticam disciplina para com os seus membros falhos. Antes, praticam vingança. E em vez de disciplinar e recuperar aquelas pessoas, tratam-nas como leprosas espirituais, banem-nas do seu rol de membros e simplesmente passam a desprezá-las.

Muitos de nós, professores, médicos, policiais, enfim, qualquer profissional, crente ou ateu, rico ou pobre, branco ou negro, de qualquer nação, simplesmente age diante de outras pessoas, principalmente em relação às menores e mais fracas, como se nós fôssemos vasos de ouro e elas, de barro. Mas a ironia santa está bem aqui: Deus escondeu Seu tesouro em vasos de barro, para que a excelência da glória seja Dele e não nossa (2Coríntios 4:7). O que deve brilhar e chamar a atenção é o conteúdo, não o recipiente.

Deus é especialista em reciclar gente fracassada. Ele é especialista em levantar outra vez gente que falhou, gente rebelde, gente que não tem valor para os outros, que gera nesses “antipatia”, que lhes causa desgastes e desgostos. O Senhor a vê e tem prazer imenso em resgatar para Si essa gente. Ele faz com que essas pessoas que se sentem desprezadas sejam extremamente úteis no Seu Reino, porque Ele não busca perfeição em nós, mas pretende manifestar Sua perfeição em nós.

Ele não imita a Igreja nem os homens – graças a Deus por isso! –, mas nós devíamos imitar mais Jesus. Ele nunca vai até o arrependido com uma palavra de repreensão, mas sempre com uma anunciação de graça, com expressões de conforto e ânimo. E Ele nunca Se cansa de nós, nunca cria antipatia por piores que sejamos. Ele Se importa e se envolve, insiste e persiste nos amando.

Cristãos de todos os tempos e lugares e, em especial, os educadores precisam, com urgência, aprender com Jesus a conjugar o verbo amar.