sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Encontrando Deus


Imagem: Disponível na Internet.

  
“Para onde poderia eu escapar do Teu Espírito?
Para onde poderia fugir da Tua presença?”
Salmos 139:7

  
Lá pelos idos de 1904, meu escritor preferido, na obra Poemas Infantis, graciosamente escreveu:


Para experimentar Octávio, o mestre
Diz: “Já que tudo sabes, venhas cá!
Digas em que ponto da extensão terrestre
Ou da extensão celeste Deus está!”

Por um momento apenas, fica mudo
Octávio, e logo esta resposta dá:
“Eu, senhor mestre, lhe daria tudo,
Se me dissesse onde é que ele não está!”


O poema acima é intitulado “Deus”, e é de autoria de Olavo Bilac. Como é característico desse nobre poeta, trata-se de outra pequena grande obra que, em poucas linhas, diz muito mais que muitos discursos poderiam dizer.

Não nos disporemos a fazer uma análise sobre o poema (isso é assunto para outra ocasião), embora me encante a astúcia de Octávio em reconhecer a existência e onipresença de Deus muito além da ignorância do seu mestre.

A reflexão a que proponho nasce da distorção que muitas pessoas fazem da mesma certeza de Bilac (ou, antes, do seu personagem, o Octávio). Nas palavras bem trabalhadas do escritor, em poesia se expressam a grandeza e a autossuficiência de Deus. Já no comportamento de muitas pessoas em relação a Deus, de forma um tanto quanto pragmática, vemos a manifestação do interesse de justificar e permanecer numa vida altiva, segundo a sua vontade.

Quantas vezes temos ouvido de pessoas sem compromisso com o que é espiritual e eterno, apontando – com orgulho e com base não sei em quê –  para seres inanimados da natureza, e até mesmo batendo no próprio peito, a afirmação de algo como: “Deus está em toda parte, e Ele está dentro de todos nós”, com a pretensão de permanecer nos seus erros e de justificá-los ao crer que Deus está em seus corações, porém nunca se importou com seus estilos de vida, na maioria das vezes, desconexos dos princípios bíblicos e intensos no curso errante de uma sociedade indiferente à vontade soberana e perfeita de Deus.

Contudo, não há base bíblica para entendermos que Deus esteja em todas as pessoas, mas, sim, que Se manifesta nas suas vidas e também por meio de muitas delas, quando elas se permitem ser um instrumento de honra para Ele. Judas, o que traiu Jesus, é um desses exemplos. Deus esteve em Judas, até o momento em que ele escolheu se vender por trinta peças de prata e trair o Senhor [1]. Deus Se retirou de Saul, quando este escolheu importar-se e agradar mais a homens que ao Senhor [2]. Deus não estava em mim, quando eu fazia todas as minhas vontades e pensava que o livre arbítrio me dava direito de escolher viver no pecado a meu bel-prazer quando, na verdade, ele justamente fazia o contrário: Me dava liberdade e autoridade para escolher não cometer os mesmos erros e desviar-me de muitos outros que ainda viriam ao meu encontro.

Certa vez, me disseram para olhar para o vento, para as nuvens, para a chuva que cai, para o céu novo a cada dia, para a imensidão do mar, a fim de enxergar Deus. Honestamente, não duvido que a natureza, na sua imperiosa majestade, seja evidência indiscutível da existência e do poder de Deus. Mas não porque Ele esteja lá, e sim porque os seres e fenômenos da natureza são obras das Suas mãos e exemplificam quão grande e perfeito é o nosso Deus [3]: “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das Suas mãos. Um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite. Sem discurso nem palavras, não se ouve a Sua voz. Mas a Sua voz ressoa por toda a terra, e as Suas palavras, até os confins do mundo...” [4]

É assim que Deus está em toda parte: Manifestando Sua glória e poder por toda a terra, até os confins do mundo, e falando aos corações das pessoas sensíveis por meio das maravilhas da Sua Criação, capazes de conversar com toda simplicidade com uma criança e, ao mesmo tempo, inspirar e dialogar com os mais cultos dos homens. Mas quanto a estar dentro deles, a Bíblia diz que Ele está dentro daquelas pessoas que têm uma alma contrita e quebrantada [5], daqueles que O buscam de todo coração [6].

Como Octávio e como o salmista [7], também me vi cercada por todos os lados pelas impressões de Deus e pela certeza da Sua existência. E a Sua mão, no intuito de chamar a minha atenção e converter-me a Si estava sobre mim.

Mas somente quando me derramei com toda a minha sinceridade, na certeza que estava vencida e precisava mais Dele do que Ele de mim, e convencida que eu jamais poderia ser feliz sem tê-Lo no senhorio da minha vida, foi que pude enxergar Deus. Num momento de contrição, olhando bem para dentro do meu coração pecador, foi que eu O encontrei.

E só estava lá porque a porta do quebrantamento deu-Lhe passagem para começar uma grande transformação em mim.


Falar com Deus - Novo Tom (2005)





[1] Lucas 22:1-6;  João 13:2
[2] 1Samuel 16:1-14
[3] Colossenses 1:15-17; Gênesis 1 e 2
[4] Salmo 19:1-4
[5] Salmo 51
[6] Jeremias 29:12-13; 2Crônicas 7:14
[7] Salmo 139:1-18