segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Serenidade...



 
Imagem: Disponível na Internet.


“[...] E aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração...”
Jesus Cristo, em Mateus 11:29


Existe algo muito singular na oração de Jesus, narrada no Evangelho de João, 17. O Homem que começou aquela oração dizendo serenamente: “Pai, é chegada a hora...”, era o mesmo que estava a algumas horas apenas de uma prisão injusta, de humilhações intensas, e de uma morte terrivelmente dolorosa.

Que tipo de pessoa é essa que está prestes a sofrer os piores escárnios e a ser pregado no alto de uma cruz, e começa uma oração de despedida desse jeito?

A serenidade é mesmo uma característica impressionante em Cristo, desde a sua origem – que decorre da Sua intimidade profunda com Deus –  até a sua manifestação –  que deixa ao mundo lições extraordinárias para momentos diversos de conflitos.

A serenidade de Jesus permitiu-O dormir tranquilamente num barco açoitado por ondas bravias e ventos fortes em meio a uma tempestade [1], enquanto os discípulos ao Seu redor se desesperavam. A tranquilidade e o autocontrole que a presença do Senhor nos dá é algo impressionante, mas quem costuma olhar para as circunstâncias apenas vê o Jesus que dorme no meio de uma tormenta, e não o Jesus que criou a natureza e lhe concedeu toda aquela força.

A serenidade do Mestre O instruiu a lidar calma e sabiamente com o diabo, quando tentado por ele no deserto, de forma a jamais ceder às suas provocações [2]. Agir emocionalmente, motivado por impulsos, é sempre um modo fácil de sofrer grandes perdas e frustrações. A comunhão com Deus e a obediência à Sua Palavra, como Paulo bem nos ensinou, leva-nos a apresentarmos nossas vidas diante de Deus como um constante culto racional, através do qual podemos conhecer o que é bom, agradável e perfeito para nossas vidas [3] e, consequentemente, fazermos o que é certo e necessário em vez apenas do que é desejado.

Foi a serenidade de Cristo que encantou a Pilatos mais do que os Seus milagres [4], porque serenidade, tranquilidade, calma, imperturbabilidade, não são sinônimos de fraqueza ou de falta de atitude. Na verdade, é necessário ter um equilíbrio emocional e um autocontrole muito grande para vivenciar uma injustiça como aquela de que Jesus foi vitimado e, ainda assim, manter-se calado, confiante unicamente na justiça de Deus que, diga-se de passagem, ainda demoraria mais alguns milênios para se cumprir [5]. Contudo, a prova que a presença de Deus se faz em nós decorre do nosso comportamento diante das circunstâncias e, muitas vezes, a melhor atitude será precisamente não fazer nem dizer nada.

A serenidade no coração do Senhor O fez enxergar pessoas além dos trapos que as vestiam, além das feridas da lepra em seus corpos, além da falta de mantimentos nos seus lares, além da maldade em seus corações. Jesus não julgava pessoas, Ele as amava. Ele não concordava com muitas de suas atitudes, mas em vez de lhes condenar, Ele as instruía amorosa e serenamente. E nesse processo paciente e meigo, muitas, muitas delas se convenceram que a mudança era realmente necessária, e foram por Ele transformadas em pessoas melhores.

Após uma conversa com o Senhor, o jovem rico escolheu perder a vida eterna a abrir mão das suas riquezas materiais, e ainda assim foi respeitado por Jesus [6]. Noutro momento de diálogo com o Mestre, Zaqueu, ao contrário do jovem príncipe, decidiu por conta própria dar a metade dos seus bens aos pobres e ainda restituir às pessoas quatro vezes mais os valores por ele defraudados [7]. E esse comportamento foi louvado pelo Senhor.

A serenidade na face do Filho de Deus foi além da tirania do Seu tempo, calando os acusadores de uma mulher pega em adultério, após levá-los – com classe e sem discursos – a uma profunda reflexão interior por meio de uma sucinta, porém poderosa, máxima de Sua autoria: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela” [8]. Excedeu a religiosidade excludente, e deu uma nova oportunidade à mulher samaritana, que era desprezada por pertencer a outro povo e viver em concubinato [9]. Desconsiderou a lógica humana de selecionar os melhores instruídos para os melhores cargos, e deu a agricultores, pescadores e coletores de impostos as chaves do Seu Reino eterno [10].

A serenidade no olhar de Jesus foi o que atingiu em cheio o coração de Pedro após este ter Lhe negado por três vezes [11], e produziu arrependimento no coração do discípulo. Olhar sereno, afável, gentil que, em certas situações fala muito mais que qualquer sermão.

Essa doçura, essa mansidão, essa calma no fazer, no falar e no pensar, são das virtudes mais evidentes em Jesus, e que também fazem Dele o maior referencial para todo ser humano que quer aprender a ser melhor, e que almeja tornar o mundo de alguém melhor.

Às vezes, em momentos complexos, delicados, uma agitação severa toma nossos corações e nos deixa feridos, sensíveis, doloridos. A cura plena em muitos desses momentos nós obtemos na afeição e na pureza do olhar, das palavras e dos gestos de alguém sereno. Alguém que, na franqueza e simplicidade da sua vida, reflete Jesus.


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[1] Mateus 8:23-27
[2] Mateus 4:1-11
[3] Romanos 12:1-2
[4] Marcos 15:1-5
[5] Hebreus 10:12-13; 1Coríntios 15:1-25
[6] Lucas 18:18-27
[7] Lucas 19:1-10
[8] João 8:1-11
[9] João 4:1-26
[10] Mateus 16:13-19
[11] Lucas 22:60-62