sexta-feira, 14 de março de 2014

Os judas que procederam Judas...


Imagem: Disponível na Internet.




“Não há nada que se possa esconder de Deus.
Em toda a criação, tudo está descoberto e aberto diante dos Seus olhos,
e é a Ele que todos nós teremos de prestar contas.”
Hebreus 4.13 – NTLH


Nesta madrugada, num documentário, ouvi de uma conhecida pensadora da nossa política nacional, que aquilo que somos não se revela no que dizemos acerca de nós mesmos, mas sim no que nós falamos do outro.

É mesmo nítido esse paradoxo em grande parte da composição da nossa fala acerca de nós mesmos e também acerca do julgamento que fazemos das demais pessoas. De um lado, cá estamos nós, tecendo conclusões acerca do que ou de quem desconhecemos, nos precipitando em formar conceitos impróprios, incoerentes, injustos, fundamentados unicamente nas aparências, mesmo naquelas situações mais simples.

Contudo, o médico que parecia ser meio desorientado, foi o único ortopedista que me explicou com precisão a origem, a evolução e o tratamento correto para o problema que tenho no joelho há vários anos.

O aluno mais violento e rejeitado de toda a escola no ano de 2003, foi meu maior desafio e tornou-se minha maior realização profissional até hoje.

A tela pela qual eu mais senti desprezo enquanto pintava, foi concluída como a mais bela e significativa obra que, considero, eu já pintei nesses 17 anos de arte, merecendo, inclusive,  permanecer enfeitando lindamente a parede da minha sala, no mesmo lugar, há mais de uma década.

Aplausos, pois, para a palavra sábia do Mestre Jesus, a exortar-nos: “Parem de julgar pelas aparências, e julguem com justiça”[1]. Ele, mais do que ninguém, sabia a dimensão do peso de ser julgado e condenado sendo inocente, de receber críticas indevidas, de ser rejeitado e desprezado injustamente.

De outro lado, muitos de nós querem manter, diante dos demais, uma aparência falsa, hipócrita, que não resiste ao confronto com uma reflexão mais profunda acerca de si mesmo. Por esse motivo, somos sempre carentes de momentos de retiros intrapessoais, de autoanálises, de silêncio e reflexões à luz da Verdade que pode nos iluminar e revelar manchas mais ocultas[2], necessidades de mudanças imediatas.

Ocorre que momentos de silêncio, de reflexão, são importantes para ouvirmos os gritos da nossa alma e compreendermos sua verdadeira dimensão e origem. São apenas birra? São carências? Refletem medo, ódio, preocupação? O que são?...

Momentos de silêncio falam muito mais alto que nossas palavras gritando aos quatro ventos sobre quem somos nós. É que no sossego, qualquer som será revelado precisamente como é, e não poderá ser confundido com os sons do estrelismo do nosso ego, com os ruídos da nossa autossuficiência, nem com as músicas dos elogios que fazem-nos bailar com nossas máscaras e fantasias encobrindo o que realmente somos.

Nossa hipocrisia se torna evidente e a maldade em nossos corações é revelada quando calamos nossos lábios e conversamos com nossas atitudes. Aplausos, pois, novamente, ao Santo de Nazaré, que destemidamente nos confronta com Sua infalível Verdade: “Assim são vocês: Por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade”[3].

Quando Jesus disse essas palavras, Ele estava Se dirigindo aos fariseus da Sua época porque nós não estávamos lá. Hoje, Ele nos traz Sua Palavra, Seus servos, Seus sinais, e denuncia que nós, de fato, temos sido os judas que procederam Judas. Este foi fiel ao Senhor com seu corpo, mas O traiu com seu coração, e nós, pela nossa hipocrisia, fazemos o mesmo.

No domingo, recordamos Jesus e Seu sacrifício de amor por nós na ceia, e durante a semana inteira recordamos com mágoa a injúria que alguém cometeu contra nós. Falamos do Evangelho com nossas palavras e pregamos egoísmo, altivez, inveja e falta de amor com nossos atos... No final de tudo, nossos rostos carinhosos que cantam “Hosana, Bendito é O que vem em nome do Senhor!”[4], também podem ser contados no meio da multidão que crucifica novamente Jesus diante do mundo, ao proclamá-Lo com suas bocas e negá-Lo com suas vidas.

A melhor maneira de compreender quem nós somos, é buscando em Deus toda a verdade a nosso respeito. “Não há nada que se possa esconder de Deus. Em toda a criação, tudo está descoberto e aberto diante dos Seus olhos, e é a Ele que todos nós teremos de prestar contas”[5] Sua palavra não aumenta nem diminui nada sobre nós. Antes, é verdadeira em expor tudo o que precisa ser transformado. E melhor: Nos mostra como isso pode ser feito, e o faz por nós e em nós.

Obviamente, não se trata de um processo curto e nem fácil, mas é poderoso e eficaz. Fará com que nos olhemos no espelho com mais honestidade. Trará melhoras aos nossos relacionamentos, porque então, o que nós tivermos de pensar e dizer sobre outras pessoas, será precisamente reconhecê-las como pecadoras indignas da graça, porém, consumidas pela misericórdia de Deus, exatamente como nós.

  



[1] João 7.24 – NTLH
[2] Hebreus 4.13
[3] Mateus 23.28 – NVI
[4] João 12:12-13 – NVI
[5] Hebreus 4.13 – NTLH