sábado, 19 de abril de 2014

Cristo em nós


Imagem: Disponível na Internet.


“O Senhor é longânimo, e grande em misericórdia, 
que perdoa a iniquidade e a transgressão...”
Números 14:18 – ACRF


Enquanto exibia algumas fotos que circulam pela Internet, com euforia uma “cristã”, minha conhecida do trabalho, contava para outra sobre as terríveis agressões físicas que alguns detentos, recente, fizeram àquele lutador de jiu-jitsu que matou seu enteado com maus tratos. A história é bem atual, dispensando o relato de maiores detalhes aqui.

Orgulhosa, a colega teceu comentários de louvor aos detentos que agrediram o homem, expressou seu desejo de que torturas piores, em nome da justiça, fossem feitas ao criminoso, esperando receber nosso apoio às suas palavras. Eu não gosto de entrar em discussões polêmicas, embora eu tenha uma visão crítica muito abrangente, mas não pude permanecer calada. Minha reação foi expressar com palavras o que agora escrevo, fundada em princípios da Bíblia e também na nossa própria experiência de salvação.

A questão aqui não é o mérito do crime. A barbárie cometida pelo padrasto do menino foi tão abominável que não carece de outros comentários. A questão aqui é a justiça que a maioria dos cristãos quer exercer com as próprias mãos. Essa “justiça”, tal como se pretendeu fazer, na verdade, trata-se de vingança, e vingança é algo que, biblicamente, pertence exclusivamente ao Senhor.

Quando Deus disse: “[...] Minha é a vingança, Eu darei a recompensa, diz o Senhor [...]”[1], “bem sabemos Quem foi que disse: ‘Eu me vingarei, Eu acertarei as contas com eles’ [...]”[2], Ele estava declarando que é o único Juiz apto a conhecer, julgar e condenar o íntimo do ser humano, precisamente como Tiago nos descreveu em sua epístola, desabonando qualquer ser humano da condição de justiceiro ou vingador: “Há apenas um Legislador e Juiz, Aquele que pode salvar ou destruir. Mas quem é você para julgar o seu próximo?”[3]

Paulo, escrevendo aos romanos, adverte: “Obedeçam às autoridades, todos vocês. Pois nenhuma autoridade existe sem a permissão de Deus, e as que existem foram colocadas nos seus lugares por Ele”[4]. A justiça divina sobre a terra, boa parte dela, é exercida pelas autoridades constituídas. É certo que parte dessa justiça é maculada pela cegueira do homem e pelos interesses pessoais de algumas pessoas inescrupulosas, mas há pessoas designadas por Deus para elaborarem leis e fazê-las cumprir-se, inclusive aplicando as devidas penalizações para os infratores. Essa é uma primeira questão a ser vista sob os princípios do Evangelho: A justiça pertence a Deus e aos homens por Ele instituídos, não às multidões revoltadas, vingativas e cheias de ódio.

Outro ponto a se observar é a incoerente equiparação dos comportamentos em nome dessa “justiça”. Um homem bruto matou uma criança às pancadas. Outras pessoas fazem quase o mesmo com ele para lhe ensinar que aquele comportamento estava errado. Há alguma coerência nisso?

Essa política do “olho por olho, dente por dente” foi banida pelo Senhor Jesus[5], precisamente porque ela torna os “justiceiros” tão facínoras quanto o facínora, e lhes confere características como as do diabo, que “veio senão a roubar, matar e destruir”, enquanto Cristo veio nos dar vida, e vida plena[6]. É Dele, pois, que devemos tirar e praticar os exemplos[7]. É isso o que a Bíblia nos ensina a fazer, mesmo que seja necessário passarmos por cima de todas as nossas convicções contraditórias aos princípios do Evangelho, por melhores e mais justas que elas pareçam.

Um terceiro ponto a ser observado é que, mesmo sendo um malfeitor, a graça de Deus ainda está sendo vertida sobre aquele homem, tal como ao ladrão da cruz ao lado de Cristo crucificado, o qual, nos últimos instantes da sua vida, demonstrou arrependimento verdadeiro e dependência de Cristo para ser salvo, e recebeu, pela sua confissão sincera, a salvação[8].

Assim como o sol, que Deus levanta sobre maus e bons, e como a chuva, que é derramada por Ele sobre justos e injustos, o Senhor  derrama o Seu amor e a Sua graça sobre todos os homens[9], manifestando extravagantemente, através da pessoa e da obra de Jesus Cristo[10], o Seu interesse em salvar, libertar e transformar todos eles[11], “pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus”[12]. Todos. Inclusive você e eu.

Por esse favor imerecido que Deus tem dispensado a todos os seres humanos, inclusive aos piores deles, de forma a permitir a todos nós a oportunidade de perdão e salvação[13], podemos também observar outro ponto de suma importância na vida de um cristão: O exercício do perdão e da misericórdia.

É impressionante a hipocrisia contida nas orações da maioria de nós, que mecanicamente repete: “Pai nosso, que estás no Céu, [...] perdoa as nossas dívidas, assim como perdoamos os nossos devedores”[14]. Tamanha é a relevância de perdoarmos os outros, à exemplo do próprio Senhor, que, após ensinar-nos o modelo de oração que é o “Pai Nosso”, Jesus enfatizou apenas o ponto mais importante dessa oração: “Porque se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai Celestial também lhes perdoará. Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará as ofensas.”[15]

A misericórdia, também conhecida como “clemência”, “compaixão”, “piedade”, é o ato de dar a alguém o que esse alguém não merece. Contrário de fazer “justiça”, que implica em retribuir aos outros aquilo que lhes é devidamente merecido. Jesus deu exemplos contundentes sobre o exercício da misericórdia e do perdão.

Quando o filho caçula pediu a herança do pai – parábola do filho pródigo, contada por Jesus e narrada por Lucas 15:11-32 – sua atitude foi uma declaração efetiva de desejo que o pai morresse, porque somente após a morte é que se passa a herança de pai para filho. Isso, por si somente, já era uma afronta ao pai e à família, suficiente para provocar a deserdação daquele filho. Além disso, o filho também vendeu suas terras e bens – que eram a herança – porque levou consigo a sua parte (obviamente convertida em dinheiro), contrariando a lei do seu tempo que não lhe dava esse direito, uma vez que o pai não teria o usufruto dessas terras para viver. E depois que, diante do desprezo absoluto de toda a sua comunidade, aquele filho foi embora do meio do seu povo, ele gastou tudo o que tinha com farras e mulheres, e tornou-se um cuidador de porcos, uma das profissões mais desprezíveis para os judeus.  Mas, em decidir voltar para a sua casa, como o pai reagiu? Com graça! Exercitando misericórdia. Perdoando e concedendo nova oportunidade àquele pródigo e pecador.

Outro exemplo é o da mulher pega em adultério. Pela lei judaica, ela deveria morrer apedrejada. Mas em vez de agir com justiça, Jesus agiu com misericórdia, pois a graça não faz o que é justo, faz o que é necessário. Era necessário levar os acusadores à autorreflexão e, muito além de preservar a memória do seu pecado, era necessário preservar a vida da mulher e conceder-lhe nova oportunidade de restauração: “Quem de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar uma pedra nesta mulher! [...] Eu também não condeno você. Vá e não peque mais!”[16]

Ainda outro exemplo citado por Jesus e narrado por Lucas 18:21-35 é aquele do credor impiedoso, que teve uma dívida enorme perdoada pelo seu senhor, mas, saindo da presença deste e encontrando imediatamente uma pessoa que lhe devia uma pequena quantia, não foi benevolente com o outro como foi o seu senhor para consigo, e mandou encerrar-lhe na prisão até que o último centavo lhe fosse pago. A justiça era cumprir a lei, vendendo os parentes do devedor como escravos e pagando toda a sua dívida. Contudo, aquele senhor, tendo compaixão, não fez isso. Antes, cancelou toda a dívida. Mas o homem que lhe devia e foi perdoado, recebeu grande misericórdia e, mesmo assim, não quis dar nenhum pouquinho dela ao seu semelhante.

E maior exemplo não há além do próprio Jesus que, não tendo culpa alguma, foi condenado, escarnecido, torturado e morto numa cruz, o  pior e mais vergonhoso instrumento de morte da época, como um dos piores malfeitores dentre os homens. E mesmo sendo inocente diante de toda aquela injustiça pediu, misericordiosamente, a Deus: “Pai, perdoa-lhes [...]”[17].

Quando eu e você fomos chamados pela graça de Deus, Ele cancelou nossa dívida. Zero. Misericórdia em ação. A justiça exigia que eu ardesse no fogo do inferno [...]. Você também. Toda a humanidade, sofrendo pela eternidade distante do Criador. Mas, então... Um Cordeiro é agarrado, surrado, cuspido, humilhado e levado ao matadouro. Ali, o holocausto oferecido numa cruz pinga sangue. E quando sai da sepultura, a terra treme com um som que diz: “Recebam minha misericórdia!” [18]

Até a na Sua ressurreição, Jesus extravasou misericórdia, perdão e amor. Isso não significa, porém, que Deus faça vistas grossas aos nossos erros. Não. Ele vê as minhas culpas. Ele vê os seus pecados. Ele viu o que aquele lutador de jiu-jitsu fez com aquela criança. E Ele não tem o culpado por inocente[19].

Contudo, Ele mesmo Se encarrega de fazer justiça, ou não. Ele não quer que nos alegremos com a desgraça do outro. Tampouco Ele quer que nós a causemos, seja a quem for. Por isso, no sermão da montanha, Jesus não disse: “Bem-aveturados os que fazem justiça com as próprias mãos”, ou “Bem-aventurados os que cumprem a lei e os seus rigores”, ou ainda, “Bem-aventurados os que retribuem na mesma medida”, mas sim, “Bem-aventurados os misericordiosos”, porque são esses que compreendem o valor da graça que Deus também já receberam.

Honestamente, eu creio que Deus ama quem é justo, e mantém um olhar diferenciado sobre quem é misericordioso. Mas Seu maior cuidado está em resgatar as ovelhas perdidas que descambaram pelos abismos da maldade e do pecado. E, para isso, Ele conta com a bondade, o perdão, a misericórdia e o amor nos corações dos Seus filhos, porque essa é a única maneira de demonstrarmos ao mundo que Jesus, de fato, está em nossas vidas.

Que esse período de Páscoa seja muito mais que trocar ovos de chocolate e repetir uma frase tradicional. Que seja propício a uma reflexão intensa sobre a real presença de Cristo em nós. E que seja propício a mudanças, destituindo finalmente o velho homem vingativo, insubmisso e impiedoso do seu trono, e permitindo o desenvolvimento de uma nova criação, um homem cada vez mais parecido com Cristo.

Feliz Páscoa todos os dias..






[1] Hebreus 10:30 – ACRF
[2] Hebreus 10:30 – NTLH
[3] Tiago 4:12 – NVI
[4] Romanos 13:1 – NTLH
[5] Mateus 5:38-48
[6] João 10:10 – ACRF
[7] 1Pedro 2:21
[8] Lucas 23:39-43
[9] Mateus 5:43-48
[10] Tito 2:11-14
[11] 1Timóteo 2:4
[12] Romanos 3:23 – NVI
[13] João 3:16
[14] Mateus 6:12 – NVI
[15] Mateus 6:14-15 – NIV
[16] João 8:1-11 – NTLH
[17] Lucas 23:34 – ACRF
[18] Maurício Zágari. Bem-aventurados os misericordiosos. Disponível em < http://apenas1.wordpress.com/2014/04/03/bem-aventurados-os-misericordiosos/>. 18 abr 2914.
[19] Números 14:18