quinta-feira, 10 de abril de 2014

Em favor de uma vida...


Foto: Angela Bacon-Kidwell. Disponível na Internet.


“Elias era tão inteiramente humano quanto nós...”
Tiago 5:17 - Viva




Betty Anne Waters (1955), casada, mãe de dois filhos, tinha 25 anos de idade e ainda não tinha terminado o primário, quando seu irmão foi preso, acusado de assassinar brutalmente a Sra. Katherine Brow, na pequeníssima cidade de Ayer, Massachusetts, EUA. Apesar de alegar inocência e de nenhuma prova apontar para Kenny Waters, irmão de Betty, como o autor do crime, ele foi condenado à prisão perpétua sem direito à condicional. O júri baseou-se nas falas de Brenda Marsh, a ex-mulher do acusado e mãe de sua filha, e também de Roseanna Perry, outra ex-namorada de Waters. Ambas testemunharam contra Kenny no tribunal, inclusive declarando que ele havia lhes confessado ter cometido aquele homicídio.

Embora Kenny já tivesse várias passagens na delegacia da cidade por causa de pequenos delitos, como roubar maçãs nos pomares dos vizinhos, envolver-se em pequenas brigas no bar, e desacatar policiais, no momento do crime Kenny estava trabalhando numa lanchonete, conforme comprovava o seu cartão de ponto e, saindo de lá, foi direto para o tribunal, para enfrentar acusações de agressão a um policial. Acontece que esse cartão foi extraviado pela polícia local, e as testemunhas – falsas – estavam fazendo declarações forjadas, sob ameaça dos mesmos policiais que queriam incriminar o Sr. Waters e manter a aparência de uma polícia competente, que jamais deixou de desvendar um crime naquela cidadezinha.

Na cadeia, Kenny tentou suicidar-se, mas não conseguiu. Em troca de não mais tentar contra a própria vida, sua irmã, Betty Anne, prometeu estudar Direito e tornar-se sua advogada, para provar que ele era inocente. E, de fato, Anne voltou para a escola, concluiu o primeiro grau (que, no Brasil, equivale ao Ensino Fundamental), fez o colegial, foi para uma faculdade de Direito e trabalhava num pub à noite para sustentar os estudos.

Mas essa escolha de Betty custar-lhe-ia muitas renúncias. Seu esposo, saturado pela dedicação quase exclusiva da mulher aos estudos em prol de um novo julgamento para o seu irmão, decidiu divorciar-se. Pouco tempo depois, os dois filhos também escolheram ir morar com o pai. Nesse momento, Betty entrou numa depressão, chegando a abandonar a faculdade por alguns dias. Contudo, foi auxiliada por uma amiga de turma, Abra Rice, recobrou o ânimo e retomou sua luta pela diplomação que poderia mudar a história da vida de seu único irmão.

Quando Kenny Waters foi julgado em 1983, ainda não havia teste de DNA. Mas durante a faculdade de Direito, Betty Anny aprendeu novas descobertas científicas – inclusive esta – que poderiam ser usadas como provas para inocentar acusados, como no caso do seu irmão. Então, Anny buscou a ajuda do Innocence Project, uma ONG americana dedicada a denunciar erros judiciários que incriminaram inocentes, e que era coordenada por Barry Scheck, um advogado que batalhava ferrenhamente contra a pena de morte.

Depois de formada e somente mediante muita insistência junto ao tribunal que julgou Kenny, a então advogada Betty Anny Waters, finalmente conseguiu encontrar e acessar as provas de que necessitava para solicitar o exame de DNA, o qual comprovou a inocência do seu irmão. Contudo, baseada nas provas que todos pensavam ser verdadeiras, a juíza responsável pelo caso entendeu que ainda havia provas suficientes para colocar Kenny na cena do crime, o que lhe manteria com a condenação por cumplicidade naquele assassinato.

Começa uma nova batalha para conseguir a confissão escrita das testemunhas, declarando a verdade sobre os fatos, e assim ficou provado tanto que Kenny jamais havia estado na cena do crime, quanto que houve alteração das provas por parte da polícia local, e ainda que esta havia ameaçado as duas ex-mulheres do acusado, de forma a forçá-las a mentir diante do júri. Por fim, depois que seu irmão foi, finalmente liberto, Betty moveu uma ação contra o Estado, o que rendeu a Kenny a indenização de U$ 3,4 milhões, por todos os anos que ele ficou preso injustamente. Foi uma luta de 18 anos, mas Betty chegou aonde o seu coração havia determinado.

Essa história real, cujo final ainda não acontece aqui, mexe com nossas concepções acerca de altruísmo. Vemos Jesus, o maior exemplo de amor altruísta, e nos encantamos com Ele, cantamos louvores em que declaramos nosso desejo de sermos como Ele, de fazermos o que Ele faria, de pensarmos e dizermos o que Ele pensa e diria. Mas nossas atitudes não condizem muito com essas declarações, e nós nem nos damos conta de quanto isso é sério, porque nos refugiamos no argumento que Jesus é Deus e, nós, não.

Contudo, a história de Betty Anne Waters nos conta de alguém que fez algo muito parecido com o que Jesus fez por nós, mas de alguém bem próximo de nós, tão próximo que ainda está vivo até hoje. Alguém de carne e osso, com uma família, com um emprego num pub, com uma depressão a vencer. Alguém cheio de paixões, tal como eu e você, tal como o grande, ousado e dedicado profeta Elias, que "era tão inteiramente humano como nós..." [1]

Não estamos falando de alguém que tenha agido impulsivamente, mas de alguém que, mesmo tendo medido todas as consequências, entendeu que tal sacrifício valeria à pena para reaver uma vida ceifada pela maldade que habitava em algumas pessoas usando um distintivo. E, simplesmente, partiu em direção ao alvo.

A Bíblia mostra que Jesus também mediu as consequências da Sua entrega. No horto das oliveiras, apenas em pensar sobre todo sofrimento a que seria exposto dentro das próximas horas, o Senhor transpirava sangue[2]. Contudo, Jesus prosseguiu em Sua escolha de fazer o que era necessário para nos salvar, ainda que aquilo não parecesse ser certo.

Essa graça repetiu-se sobre a vida de Kenny através da vida de sua irmã Betty Anne. Aquela mulher heroína poderia ter olhado para as dificuldades possíveis e para as que, de fato, se levantaram ao seu redor, tornando as circunstâncias ainda mais difíceis para ela. Penso em quanta tristeza e solidão Betty sentiu quando teve de escolher entre a impaciência do seu esposo e a liberdade do seu irmão, quando viu seus filhos desocupando a casa e indo morar com o pai, simplesmente por não compreenderem aquela situação.

Porém, Betty foi a única pessoa que sustentou a esperança de Kenny naquela prisão, durante todos esses anos. Esse altruísmo que dirigiu determinante a vida de Betty por quase duas décadas é apenas uma amostra do que Cristo foi capaz de fazer por nós. Seu amor superou qualquer outra demonstração de sentimento vinda de qualquer outra parte acerca de nós. Sua graça foi capaz de realizar a obra mais extravagante que alguém jamais pensou em fazer em nosso favor. E em nenhum momento Jesus pensou em renunciar essa missão, bastando olhar para nós para novamente concluir que somente Ele poderia mesmo trazer de volta nossa esperança e a possibilidade de um futuro melhor.

O fato triste depois de toda a luta de Betty por seu irmão não foi apresentado no filme A condenação (Conviction, original)[3], que narrou esse drama verídico. A produção de Andrew Sugerman, Andrew S. Karsch e Tony Goldwyn (2010), termina com Kenny e Betty sentados à beira de um lago, observando a beleza da vida, na sua primeira manhã do resto de suas vidas. Mas, na realidade, uma nova tragédia veio marcar essa família mais uma vez e para sempre. É que, somente após 6 meses de liberdade, Kenny (o condenado injustamente) sofreu uma queda ao pular uma cerca, o que o deixou 13 dias em coma e, depois, o levou a óbito.[4]

Contudo, sua irmã afirmava que Kenny aproveitou intensamente cada minuto da sua liberdade. E aqui é onde essa história termina, pelo menos para Kenny que, embora tenha morrido, partiu deixando a certeza que ele morreu livre e inocente, e o mundo inteiro soube disso.

Sem muito esforço vemos a grandeza da obra redentora que Cristo fez por nós, representada também pela morte de Kenny. Pessoas cujas vidas são guardadas por Ele, foram libertas por Seu sacrifício e podem partir desta vida – seja pela morte, seja pelo arrebatamento – deixando a certeza da sua libertação e absolvição, da sua nova vida livre das condenações do pecado por causa da inocência que nos foi dada por Jesus.

Talvez, muitos de nós olhem para seus futuros despretensiosa, serena e agradecidamente, como Kenny olhava para a vida diante daquele lago. Talvez, outros já conseguiram ver o Céu além das circunstâncias conhecidas e daquelas ainda estranhas pra nós. Seja como for, importa estarmos prontos para reencontrarmos nosso Salvador. Importa guardarmos nossa esperança e devoção Naquele Homem que, por amor, fez o improvável e consumou o impossível para nos tornar eternamente livres.

Pessoas que foram verdadeiramente livres em Cristo, não vivem da mesma maneira, mas desfrutam cada segundo da sua liberdade com intensidade. E quando forem chamadas por Ele, partirão livres, e o mundo ao seu redor estará consciente de que a salvação habitava as suas almas.


  




[1] Tiago 5:17 - Viva
[2] Lucas 22:40-46
[3] Ver chamada do filme A Condenação (Exibido no Brasil em 2011). CONVICTION (Original). Produção de Tony Goldwin. EUA: Vinny Filmes, 2010.