sábado, 10 de maio de 2014

Enquanto a vida prossegue lá fora...


Imagem: Disponível na Internet.



“[...] As coisas que olho não viu, e ouvido não ouviu,
e não subiram ao coração do homem,
são as que Deus preparou para os que O amam.”
1Coríntios 2.9



Não tem jeito. Por mais que a gente corra, se envolva, mude a rotina, busque novidades, aceite novos desafios, ele permanece lá, medonho, traiçoeiro, inconveniente, censurador, policiesco, pronto para nos aprisionar outra vez e outra vez, pelas algemas das lembranças, e nos encerrar atrás das grades daquilo que já não existe, mas que ainda exerce poder sobre nós. Acabou, mas ainda tem. Assim é o passado.

Fernando Pessoa (1888-1935), renomado escritor português, certa vez escreveu: “Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já não o tenho[1]. Não acredito que o autor quis desabonar as conquistas que obtivemos no passado – até porque nosso passado é repleto de histórias que calçaram nosso presente, o qual também está calçando o futuro e um dia, inevitavelmente, também se tornará passado –, mas precisamos concordar que o hoje é um novo tempo, e continuarmos presos ao passado somente atrapalha nosso presente e inviabiliza nosso futuro.

A Bíblia está repleta de passagens acerca da necessidade de deixarmos o passado precisamente onde ele está – lá atrás –, abraçarmos as possibilidades que o presente nos dá,  e continuarmos nossa caminhada, confiantes, rumo ao futuro que Deus tem preparado para nós.

Uma dessas passagens nós vemos em Gênesis 19, que conta a história da fuga de Ló e sua família, de uma cidade que seria destruída por Deus por causa do grande pecado daquele povo. Ao retirar Ló e sua família de Sodoma, o anjo do Senhor lhes ordenou que seguissem sempre adiante, e não olhassem para trás. Contudo, num determinado momento, a esposa de Ló não se conteve. Num repente de remorso, talvez, ou de um apego sincero pela sua cidade ou, quem sabe, por compaixão pela destruição que viria àquilo que estava deixando para trás, a senhora não se conteve. Ela parou no caminho, fitou o horizonte desconhecido para onde seguia, olhou sua situação atual como fugitiva, e deu um giro de cento e oitenta graus, a contemplar com saudade o que devia ter ficado para trás – no seu mundo real e no seu coração também[2].

O resultado, é que a esposa de Ló foi convertida numa estátua de sal, uma representação perfeita do que o apego ao passado faz conosco: Ele paralisa nosso presente e impossibilita nosso futuro.

Tudo o que ocorreu em nosso passado foi para nos engrandecer, nos ensinar, nos acrescentar, nos realizar, nos fortalecer. Obviamente, muitas dessas experiências vieram carregadas de frustrações e tristezas, porém, muitas delas trouxeram alegrias incontáveis, preenchimento, significação, momentos de satisfação que não poderão, jamais, serem substituídos. Existe uma história que explica boa parte do nosso presente. Uma história que aconteceu e não pode mais ser mudada. E essa história deve ser respeitada.

É uma grande tolice pensar que podemos apagar nosso passado, passar uma borracha sobre ele e vivermos como se ele jamais tivesse existido. Balela! Ele, um dia, foi futuro sonhado, que se tornou presente realizado, e depois virou passado, para dar lugar a novos presentes, os quais abririam portas para novas possibilidades futuras, até que estas se tornassem passado outra vez, num curso constante de novidades, renovações e recomeços.

Como a própria Bíblia ensina, muitas memórias nos trazem esperança (Lamentações 3:21-26). Celebrar a última ceia do Senhor Jesus, por exemplo, é uma maneira de manter viva a lembrança do quanto Ele nos amou, e isso fortalece a nossa esperança na Sua presença hoje e nas promessas que Ele nos fez. Da mesma forma, recordar boas experiências do passado sempre nos anima quando situações presentes estão nos desmotivando. Mas sofrer por experiências antigas a ponto de impedir-nos sairmos do lugar para vivermos novas experiências, isso também não é uma postura muito coerente para quem pretende ser feliz.

É certo que, se estamos olhando para as dores profundas que frustrações e perdas nos trazem, se estamos diante da insegurança de caminhar rumo ao desconhecido, e quando olhamos para este mundo insensível e cheio de maldades em que vivemos, muitas vezes, parece até justificável esse nosso apego àquelas coisas e pessoas que nos fizeram tão bem no passado. Mas a verdade é que, se não abrirmos nossas mãos e soltarmos o que pertence ao passado, jamais poderemos segurar as dádivas que o futuro vem trazendo e transformando no presente para nós.

O próprio Deus é desapegado do passado. Ele mesmo é quem diz: “Eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de Mim, e dos teus pecados não me lembro”[3]. Já pensou se Deus fosse como nós, rixoso, frustrado, rancoroso, tão ligado ao que Lhe feriu ontem, a ponto de renunciar o que o pode Lhe curar hoje? Quem de nós seria perdoado? Qual de nós teria esperança de um futuro? Que validade teria o sacrifício de Cristo por nós?

Antes, Deus reforça: “Eis que faço novas todas as coisas”[4]. Os céus, os lindos céus que manifestaram a glória de Deus aos homens e proporcionaram ao Senhor a satisfação de ser reconhecido e engrandecido por eles, esses céus passarão. Serão substituídos por outros ainda mais perfeitos e mais bonitos. A terra, essa terra de esplêndida natureza que Ele criou pessoalmente, e onde os pés do Santo pisaram, onde Ele conquistou adoradores de todas as gerações, e a qual foi palco de milagres extraordinários, essa terra também será extinta, dará lugar a uma nova terra, ainda mais perfeita, mais santa, mais condizente com o futuro que Ele mesmo prometeu dar ao Seu povo.

Deus vai abrir mão disso tudo para que haja lugar para um futuro ainda melhor. Não devíamos, pois, seguir os Seus exemplos? Não se trata de desconsiderar nada do que foi feito aqui, até porque tudo o que Deus criou no passado foi para garantir que os homens se convertessem a Ele no presente e também pudessem viver com o Senhor no futuro e para sempre. Uma história foi escrita, e ela vai permanecer. Só que ela não terminou. Na sua continuidade há espaço para novas concretizações.

Creio que Deus fica muito triste quando nos vê com medo de confiar na Sua bondade, na Sua melhor intenção, nas Suas perfeitas providências para nossas vidas. Creio que confiar em Deus é tudo o que precisamos para dar o próximo passo, deixar o passado onde ele está e nos tornarmos pessoas ainda mais realizadas no presente, vivendo um dia de cada vez, até que o futuro nos prove como tem sido grande a bondade do Senhor em escolher o melhor – sempre o melhor – para Seus filhos. “Sou Eu que conheço os planos que tenho para vocês, diz o Senhor, planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de dar-lhes esperança e um futuro”. [5]

Carregar o passado é um peso que nos atrapalha de sermos felizes, que nos impede de alcançarmos novas conquistas, que impede o próprio Deus de trabalhar em nosso favor. Ele tem os melhores planos. Planos que incluem não somente nosso serviço no Reino, mas principalmente a nossa própria felicidade e satisfação enquanto seres humanos realizados na família, no trabalho, nas relações interpessoais, enfim, em todos os seguimentos das nossas vidas. E isso tudo engrandecerá o Seu nome.

Contudo, a escolha de sermos livres para continuarmos vivendo é exclusivamente nossa. Deus nos dá direções, e nós seguimos por elas se quisermos. Se ousarmos em ir mais além, Ele nos dará todas as condições de sermos plenamente satisfeitos. Se, porém, escolhermos permanecer onde estamos e do jeito em que estamos, nossas fotografias continuarão revelando uma tristeza profunda no brilho do nosso olhar, como se a felicidade passasse pela rua, à nossa porta, todas as manhãs, nos disse “Bom dia!” com um largo sorriso, com uma mão ajeitasse seu chapéu na cabeça e, com outra, acenasse, prosseguindo seu caminho sem parar e sem nunca entrar em nossa varanda.

E, de fato, essa nossa dependência do passado é assim mesmo: Nós escolhemos viver aprisionados na sala dos nossos sonhos frustrados, enquanto a vida lá fora prossegue, eclodindo em flores novos sonhos e possibilidades, novas alternativas, multiformes e multicores.

Particularmente, eu não dou muita atenção ao subjetivismo exagerado que caracteriza a maioria das composições literárias e musicais dos românticos da nossa história, precisamente porque entendo que amores em nossas vidas vêm para nos ajudar a dar sentido a elas, e não para aprisioná-las ao sofrimento. Pouquíssimas dessas pessoas tiveram experiências reais com Deus e experimentaram a Sua cura. A maioria delas não serve como referência de uma nova vida para nós.

Ao contrário, que belo convite, sob a bênção de Deus, o esposo faz à amada esposa, no livro do Cântico dos Cânticos, baseando-se na convicção que o Senhor muda situações e cura as feridas mais profundas dentro de nós. O esposo, convidando a esposa a deixar o seu inverno –  momentos de aperto, de solidão, de tristeza –, para adentrar a primavera que alegremente sorria para ela, diz: “Levante-se, minha querida, minha bela, e venha comigo. Veja! O inverno passou; acabaram-se as chuvas, e já se foram. Aparecem flores na terra, e chegou o tempo de cantar.”[6]

Ei, pessoa linda! Abra a janela da sua alma e veja a vida te fazendo o mesmo convite do lado de fora...




[1] PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. Autobiografia sem Factos. Assírio & Alvim, Lisboa, 2006, p. 118.
[2] Gênesis 19:1-29.
[3] Isaías 43:25 – NTLH
[4] Apocalipse 21:5 – NTLH
[5] Jeremias 29:11 – NVI
[6] Cântico dos Cânticos 2:10-11 – NVI