sexta-feira, 18 de julho de 2014

Esperar em Deus...


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“Esperei com paciência no Senhor,
e ele Se inclinou para mim, e ouviu o meu clamor.”
Salmo 40.1 – ACRF



Esperar em Deus não é perder tempo, é querer o melhor.” Alguém me enviou essa frase hoje pela manhã.

Sempre acreditei nisso, e acredito que qualquer pessoa que queira ser feliz de verdade deva entregar sua ansiedade e projeções nas mãos do Senhor. Contudo, foram pouquíssimas as vezes que encontrei alguém que entenda isso, e que viva isso como diz entender.

Certamente porque esperar em Deus é a alternativa dos fortes, não a justificativa dos acomodados. Somente quem é valente o suficiente para passar por cima das próprias vontades é que faz essa opção de confiar num Deus que não Se pode ver.

E o resultado dessa espera não demora a vir. Ao longo da vida, já temos sempre a possibilidade de ver, com nossos próprios olhos, as inevitáveis frustrações decorrentes das atitudes precipitadas pelos impulsos ou pelos surtos de impaciência de muitas pessoas, inclusive de muitos cristãos que dizem conhecer a Palavra de Deus.

Mas conhecer apenas não é suficiente. Praticar o que se conhece do Evangelho é o exercício que fortalece nossa fé, torna-nos equilibrados e traz-nos maturidade a cada dia. E aqui está o grande conflito para muita gente. É que praticar a Bíblia requer renúncias, requer viver na contramão de um mundo corrompido pelo pecado, requer deixar o orgulho próprio e os caprichos do próprio ego, requer cultivar valores que estão longe do imediatismo e da materialidade, em detrimento total de qualquer outra motivação que seja maior que o desejo de caminharmos em santidade com Deus todos os dias. “[...] Ouviste qual foi a paciência de Jó, e viste o fim que o Senhor lhe deu; porque o Senhor é muito misericordioso e piedoso.”[1]

Num mundo desesperado por viver sem limites para o seu prazer – custe o que custar – uma mensagem assim soa religiosa e descontextualizada. Mas os princípios do Evangelho são descontextualizados. Eles não são pautados em fundamentos deste mundo, mas na sabedoria do Deus que é Eterno. E isso é imutável.

Certo motorista, apressado, não esperou parar o ônibus totalmente para abrir a porta traseira, e o passageiro que estava encostado nela caiu no asfalto, batendo a cabeça no meio-fio, sendo levado já desacordado e muito ensanguentado para o hospital num carro particular que passava.

Certa jovem, desesperada para casar-se, firmou laços matrimoniais com alguém que não estava preparado para ela – nem sentimentalmente, nem espiritualmente – e o fez depois de muitos conselhos de gente mais experimentada pela vida e experiente com Deus, sob forma de muitos alertas. Dentro de pouco tempo, o inevitável – e já previsível – aconteceu: Ela estava sendo traída, era diariamente violentada verbalmente por seu esposo e pelos filhos que ele trouxe do primeiro casamento, e ainda convive amargamente com o envolvimento do marido com vícios antigos, após suscetíveis recaídas.

São exemplos simples e reais de experiências frustrantes de pessoas que poderiam ter esperado, só mais um pouquinho, até o momento certo de fazer a coisa certa e da maneira certa. Acontece que, muitas vezes, a coisa certa a fazer é precisamente não fazer nada. E ter paciência é uma virtude que pouca gente tem de fato.

As cinco primeiras palavras do Salmo 40 trazem, intrinsecamente, algumas certezas que precisamos ter acerca do ato de esperar pela providência divina.

Primeiro, “Esperei”, que aponta o ato de esperar como uma decisão pessoal, um gesto da pessoa interessada em ser condecorada com a honra de um filho de Deus ao final de outro processo de crescimento no Reino. Trata-se de uma escolha e de uma determinação que ninguém mais pode fazer ou ter por nós mesmos.

Segundo, “com paciência”, que indica como devemos esperar. O dicionário Priberam traz, entre outras, duas importantes definições sobre o que vem a ser a paciência: (1) É a capacidade de tolerar contrariedades, dissabores, infelicidades. = Resignação ¹ impaciência; (2) É o sossego com que se espera uma coisa desejada.[2]

Esperar com impaciência, tendo picos constantes de precipitações e dúvidas, não demonstra sossego, nem capacidade de tolerar desgostos, muito menos alguma fé em Deus. Quando temos de sofrer uma intervenção cirúrgica, nós não ficamos deitados na mesa durante a cirurgia exigindo explicações do médico, ou fazendo perguntas sobre o que ou como ele está fazendo. Nós simplesmente confiamos que ele sabe o que deve ser feito, que ele é capaz de fazer, e confiamos nossas vidas em suas mãos. O Deus que deu os dons e toda capacitação aos médicos merece ainda mais o nosso crédito de confiança e descanso.

Por isso, Ele mesmo é o que completa a expressão do salmista: “no Senhor”. O próprio Deus. O lugar certo em que devemos depositar a nossa confiança, pois o nosso socorro vem Dele[3]. A providência que precisamos não pode vir de quem não nos conhece.

Esculturas, mitos, imagens não são conscientes, não possuem inteligência, não podem compreender os conflitos das nossas almas. Seres humanos são inteligentes, mas também não podem compreender a dinâmica em nossos corações. O alcance da sua compreensão sempre será limitado, “pois o homem vê o que está diante dos olhos; porém o Senhor olha para o coração”[4].

Portanto, esperar em Deus não é perder tempo, não é perder a razão, não é querer encontrar uma desculpa. É ser sábio, é ser forte, é ser inteligente. Quem espera em Deus deposita seu maior tesouro – a vida – no lugar mais seguro e apropriado que há. E os resultados serão sempre os melhores, porque O Melhor de todos é quem está cuidado muito bem de tudo pessoalmente para nós.

A pressa por julgar já condenou muitos inocentes. A pressa por ter muitos bens já destruiu os nomes, a paz e até as famílias de muitas pessoas. A pressa por pular etapas da aprendizagem prejudica o desenvolvimento do ser, segundo bem afirmou Piaget[5]. É ela quem atrasa – e, muitas vezes, impede – a manifestação da vontade boa, agradável e perfeita[6] do Senhor sobre nós.

Como já diz o velho ditado, a pressa é inimiga da perfeição. E Deus concorda plenamente com isso. Conhecedor do infinito como somente Ele é, Deus sempre terá uma razão quando nos mandar esperar. E, protegidos por mais essa manobra divina, nós sempre teremos motivos para Lhe agradecer.









[1] Tiago 5.11 – ACRF
[2] "paciência", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013,  http://priberam.pt/dlpo/paci%C3%AAncia [consultado em 18-07-2014].
[3] Salmo 121.2
[4] 1Samuel 16.7 – ACRF
[5] Jean Piaget (1896-1980), psicólogo e epistemólogo suíço, autor da Teoria dos Estágios e da Teoria da Espistemologia Genética, entre outras.
[6] Romanos 12.2