segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O voo dos filhos


By Elaine Cândida, com imagens disponíveis na Internet.


“Ele fortalece ao cansado e dá grande vigor ao que está sem forças.
 Até os jovens se cansam e ficam exaustos,
e os moços tropeçam e caem;
mas aqueles que esperam no Senhor renovam as suas forças.
Voam bem alto como águias; correm e não ficam exaustos,
andam e não se cansam.”
Isaías 40:29-31 – NVI


No céu azul e limpo da capital federal uma águia voava hoje, solitária, sobre o Palácio do Planalto, na Esplanada. Fiquei, por um tempo, fitando aquele voo tão livre e ao mesmo tempo solitário, solitário e ao mesmo tempo determinado, determinado e ao mesmo tempo redundante, redundante e ao mesmo tempo encantador...

Dentre tantos outros seres citados na Bíblia para bem ilustrar a maneira de ser dos verdadeiros filhos de Deus, a águia é mesmo um dos mais apropriados (Isaías 40.31). Solitária, determinada, paciente e encantadora, como todo cristão que escolhe caminhar todos os dias de sua curta vida na presença e dependência de Deus.

A solidão é inevitável na vida de alguém, quando esse alguém procura aprender com Jesus a exercer o modus vivendi de um cidadão do Céu. No livro que estou lendo atualmente, William MacDonald (1917-2007) expõe que “o cristão deve viver no mundo, mas o não pode deixar o mundo viver nele. [...] Se o mundo ama um crente declarado, isto prova que ele nunca foi genuinamente convertido (João 15.19). Se uma pessoa alega ser cristã, mas ama o mundo, isto prova que o amor do Pai não está nela (1João 2.15b)”[1]. De fato, essa decisão de ser reconhecido no mundo como alguém cujo coração projeta-se para a santidade e, consequentemente, para a eternidade com Deus, reflete num afastamento inevitável daquelas pessoas que priorizam uma vida independente do Senhor. Como prossegue o professor MacDonald,

“o mundo vil [...] é impiedoso e hostil contra nós, e determinado a destruir todo o princípio divino em que acreditamos. Procura substituir o Cristianismo pelo evolucionismo. Nega a sacralidade da vida humana pelo aborto. Procura acabar com a unidade da família pelo divórcio leviano. A pureza do relacionamento do casamento é negada pelo sexo pré-marital. O homossexualismo e o lesbianismo são vistos como estilos de vida alternativos aceitáveis. A linha de comando de Deus no lar e na Igreja é ridicularizada pelo feminismo militante. A Igreja e o Estado estão tão separados a ponto de banir totalmente a menção de Deus e Cristo da vida pública. Obscenidade, pornografia, nudez, imundície e violência são tratadas com amável tolerância. Portanto, entorpecido e insensível, o mundo despreza toda lei de Deus e se lança ao seu terrível julgamento.”[2]

Essa solidão que caracteriza um verdadeiro cristão, precede determinação e paciência. Determinação em ser um seguidor de Cristo – ainda que isso implique contrariar opiniões e ser excluído de muitos círculos e relacionamentos – e paciência para esperar o tempo e o modo certos para fazer escolhas e tomar decisões. Tal como a águia que parecia exibir-se pra mim, a determinação de concluir um lance e a paciência de circular indo e vindo, num voo redundante, até encontrar o momento exato para pousar em segurança e recomeçar outro ciclo de voo ainda mais longo, são virtudes de quem ama Jesus e tem-No como sua maior fonte de inspiração.

E essa postura é o que torna os filhos de Deus encantadores como águias. Pessoas bem sucedidas espiritualmente, caminham em paz com Deus e levam essa paz por onde forem. São pessoas que resistem a regimes hostis e mantêm a fé em circunstâncias adversas, podendo, portanto, aconselhar e auxiliar outras ao seu redor, a qualquer tempo. Possuem sempre uma palavra otimista, que anima e incentiva pessoas desanimadas, aflitas, temerosas. São centradas, responsáveis, submissas, honestas, simples, sinceras – qualidades que vão aprendendo, apreendendo e aperfeiçoando constantemente pelo seu relacionamento diário com o Espírito Santo de Deus. Não são perfeitas, são humanas. Mas não se acomodam nas suas imperfeições. Antes, espelham-se de Cristo, e buscam Nele a perfeição que vem do alto (Efésios 4:11-15).

Contudo, nessa caminhada solitária em relação ao mundo, os filhos de Deus encontram a amizade uns dos outros e mantêm-se amparados na unidade da fé, numa jornada que torna-se menos dolorosa pela presença e pelas orações dos irmãos, uns pelos outros. O voo da águia que, solitária, enfeitava um cantinho do céu de Brasília, ganhou reforço extra de outras três companheiras que, voluntariamente surgiam, uma a uma, para acompanhá-la naquele breve e inspirador espetáculo.

Se outras pessoas estavam de olhos fitos como eu naquele momento único da natureza, que parecia realizar uma apresentação de balé clássico para um rei sentado numa plateia, não sei. Tudo o que sei é que me chamou muito a atenção aquele afago carinhoso do Pai para as almas dos cristãos genuínos que se encontram relativamente desanimados nesses tempos tão difíceis... Um adorável e sutil lembrete do Criador sobre quem são e como vivem Seus filhos.

Como águias que constantemente renovam suas forças no Senhor e voam alto sem se cansar, eles ainda podem ser encontrados no mundo, numa tarde de segunda-feira, em meio a uma selva de pedras, na agitada rotina diária dum grande centro urbano, cumprindo o chamado para serem adoradores em qualquer lugar, em qualquer condição, capazes de alegrar a tarde e influenciar beneficamente a vida de alguém.





[1] MacDONALD, William. No mundo, mas não do mundo. Trad.: E. Henrique Pesch. Porto Alegre: Actual Edições, 2011. Pág. 24 e 28.
[2] Ibidem, pág. 25.