terça-feira, 14 de outubro de 2014

Como cidades sem muros...


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“Como a cidade derrubada, sem muro,
assim é o homem que não pode conter o seu espírito.”
Provérbios 25.28 – ACRF


Agir por impulsos está entre os piores comportamentos que o ser humano pode ter. Ser impulsivo é um modo terrivelmente cruel de ferir sentimentos, maltratar pessoas, ofender quem não merece, provocar inimizades, desencantar corações, destruir sonhos.

Pessoas impulsivas comumente se arrependem do que fazem, e fazem os outros se arrependerem de terem se envolvido tanto ou permanecido tão perto delas. Conheço pessoas assim, impulsivas, que conseguiram causar profundas feridas em gente que elas diziam amar, simplesmente por não se controlarem no momento da raiva, ou por não pensarem um pouco mais antes de abrirem suas bocas e vomitarem todo tipo de ofensas, ou por não se colocarem no lugar do outro antes de tomarem certas atitudes.

A Bíblia traz vários exemplos de pessoas impulsivas. Algumas foram muito mal sucedidas com suas atitudes, como Saul, que na aparente demora da chegada do profeta Samuel, ofereceu, ele mesmo, os holocaustos que somente o sacerdote eleito pelo Senhor podia oferecer[1].  Outras pessoas impulsivas, segundo as narrativas bíblicas, teriam causado grandes tragédias, não fosse pela intervenção de alguém, digamos, um pouco mais racional.

Um desses exemplos é Davi. Após ter servido Nabal com proteção e auxílios diversos enquanto este estava com seus rebanhos no deserto por um longo período do ano, Davi não recebeu daquele homem a mesma cortesia, quando precisou de sua ajuda para alimentar seus soldados noutra ocasião, também no deserto. Antes, foi insultado e teve seus pedidos negados. Revoltado – e temperamental que era –, “Davi ordenou aos homens: ‘Ponham suas espadas na cintura!’[2]”, numa expressa aspiração à vingança, e rumou em direção às propriedades de Nabal.

Ocorre que, no caminho, Abgail, esposa de Nabal, foi-lhe ao encontro, levando muitos presentes e provisões para o sustento dos guerreiros de Davi. E pela atitude pensada, carregada da doçura com que lidou com o rei, pela exposição de toda a real situação, Abgail conseguiu alcançar o coração de Davi e tocá-lo gentilmente, de forma a frear a ira quase incontida daquele homem imensamente treinado em combates. O final dessa história, narrada no capítulo 25 do primeiro livro de Samuel, é que um massacre foi evitado pela mansidão, ousadia e sabedoria de uma mulher que se recusou a agir com a insensatez do seu esposo e com a impulsividade de Davi. Depois disso, o próprio Deus Se encarregou de ferir e matar Nabal em vingança por Seu servo, permitindo que a mulher protagonista dessa história viesse a tornar-se uma das suas esposas.

Outro exemplo em que a razão lindamente prevalece à impulsividade, é aquele momento em que Pedro, ignorando todos os avisos de Jesus sobre Sua paixão e morte, lança mão de sua espada e decepa a orelha do soldado Malco, pensando estar fazendo um grande favor e protegendo o Senhor de Sua inevitável prisão. A resposta de Jesus a essa atitude emotiva foi pautada na lógica celestial: “Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão. Você acha que Eu não posso pedir a Meu Pai, e Ele não colocaria imediatamente à Minha disposição mais de doze legiões de anjos? Como então se cumpririam as Escrituras que dizem que as coisas deveriam acontecer desta forma?”[3] E Jesus tocou na orelha do soldado ferido e o curou[4].

Certa vez, a impulsividade disse a Jesus, quando Ele predisse Sua morte expiatória: “Nunca, Senhor! Isso nunca Te acontecerá!” E a razão respondeu-lhe determinada: “Para trás de Mim, satanás! Você é uma pedra de tropeço para Mim, e não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens.”[5]

A impulsividade também disse a Jesus, quando Ele predisse que seria abandonado por todos desde o momento da Sua prisão: “Ainda que todos Te abandonem, eu nunca te abandonarei!” E a razão respondeu-lhe consciente: “Asseguro-lhe que ainda esta noite, antes que o galo cante, três vezes você Me negará.”[6]

A impulsividade disse ainda, a três pessoas, que não conhecia Jesus, quando a pessoa de Pedro foi identificada como um dos seguidores do Nazareno, após Sua prisão. E, dessa vez, a razão respondeu-lhe com um olhar penetrante, de amor profundo, que falou tudo o que era preciso a Pedro e sem pronunciar uma palavra sequer. “Então, Pedro se lembrou da palavra que o Senhor lhe tinha dito: ‘Antes que o galo cante hoje, você Me negará três vezes’. E, saindo dali [do pátio onde Jesus passava aprisionado], chorou amargamente.”[7]

Muitas gravidezes indesejadas (ou inapropriadas) poderiam ser evitadas, não fosse a concessão dada aos impulsos. Muitos divórcios, vícios e até mortes deixariam de ocorrer se a razão gritasse mais alto que as emoções em muitos casos. Muitos relacionamentos de amor ou amizade não se perderiam, se consequências e proporções fossem medidas. Muito desgaste e sofrimento deixariam de ser, se tão somente as pessoas pensassem em vez de simplesmente agirem.

Sem dúvidas, um mundo sem emoções seria frio, sem graça, desbotado. Emoções dão um gosto especial à vida, e não é nossa intenção discordar disso. Há momentos em que pensar demais prejudica mais do que ajuda. São momentos específicos em que as emoções devem ser extravasadas. Mas até isso, para ser feito de modo a não prejudicar ninguém e nem contrariar os princípios de Deus, precisa primeiramente ser pensado, pois ter equilíbrio é fundamental para a sobrevivência humana.

Conheço mulheres briguentas, brutas, rixosas, impacientes, explosivas, arrogantes, controladoras, insistentes, exigentes, chatas demais – tão chatas que, se eu fosse um homem, me recusaria a ter um caso com qualquer uma delas –, que ofendem e humilham seus namorados/maridos diante de outras pessoas, amedrontam os filhos em vez de alcançá-los com exemplos de amor e respeito, e acabam por tornar o lar um lugar de pouca paz. Frutos da impulsividade.

Às vezes, é um pouco mais trabalhoso pensar para resolver conflitos. Principalmente, se são conflitos de ordem espiritual, que exigem um relacionamento íntimo com Deus, de forma a ouvirmos Sua voz antes de tomarmos certas decisões. E nem sempre esses direcionamentos do Eterno combinam com nossas vontades. Contudo, contrariar opiniões – as nossas e as dos outros – em favor da satisfação da boa, agradável e perfeita vontade de Deus[8] é sempre uma postura louvável – um louvor que muitas vezes não vem de homens, mas sempre procede de Deus[9]. O resultado de atitudes assim é sempre o melhor.

Ouvir, esperar, perseverar, confiar, refletir, suportar, prosseguir, vencer. Não vejo, na Bíblia, outra sequência de comportamentos necessários para quem quer ter e semear paz, apresentando sua integridade por cartão de visita.




[1] 1Samuel 13:1-15
[2] 1Samuel 25:13
[3] Mateus 26:52-54
[4] Lucas 22:50-51
[5] Mateus 16:21-23
[6] Mateus 26:31-35
[7] Lucas 22:54-62
[8] Romanos 12:2
[9] Romanos 2:25-29