sábado, 13 de dezembro de 2014

Produto dos olhos


Imagem disponível na Internet.

“Os olhos são como uma luz para o corpo:
quando os olhos de vocês são bons,
todo o seu corpo fica cheio de luz.
Porém, se os seus olhos forem maus,
o seu corpo ficará cheio de escuridão.
Portanto, tenham cuidado para que a luz que está em você
não seja escuridão.”
(Lucas 11:34-35 – NTLH)


“Com certeza sou resultado do que aceito por meus olhos”. Eu não vi a expressão do seu rosto, mas imagino que sua face tenha desfalecido um pouco, enquanto um amigo muito querido me escrevia essa conclusão, após uma breve meditação sobre sua vida. Imagino seus olhos brilhando, fitando por alguns instantes um lugar nenhum, enternecidos de amor e gratidão a Jesus, ao meditar, mais uma vez, no quanto nós somos frágeis e desmerecedores do amor incondicional de Deus.

Qualquer um que medite sobre o quanto Deus nos ama e, ainda assim, somos tão ingratos e desobedientes, obstinados em nossas escolhas, certamente concluirá o mesmo. E o fará com certo pesar no coração, ao compreender que, embora tenhamos a opção de não pecar, muitas e muitas vezes fazemos as escolhas erradas, baseando-nos naquilo que nossos olhos veem. Encantados com as possibilidades que nossos olhos encontram no mundo, poucas vezes priorizamos a escolha das coisas celestiais.

Nossos olhos, muitas vezes, se engraçam com coisas perigosas, se envolvem com meras aparências, se enganam com paixões passageiras e, consequentemente, nos aprisionam em vez de conduzir. São pontes perigosas que, ora, ligam nossas almas ao mundo exterior e, ora, trazem o mundo para dentro de nós. Por isso mesmo, nossos olhos são responsáveis por quase tudo o que somos.

A criança não deseja o pirulito até que veja um. A mulher só compra o vestido que agrada aos seus olhos. Nós somente desejamos aquilo que nossos olhos conseguem enxergar, quase nunca apenas o que nossos corpos conseguem sentir. Por isso mesmo, muitas vezes deixamos de desejar o Senhor, deixamos de desejar sermos como Ele. Nem sempre O vemos. Se não O vemos, também nem sempre O sentimos. Se não O sentimos, não experimentamos o bem que a Sua presença nos faz. E o lugar em nós que não é ocupado pela presença de Deus, certamente o é por outra pessoa ou coisa.

O salmista, sabendo disso, bem declarou: “Não porei coisas más diante dos meus olhos!”[1] Outra tradução diz do mesmo verso: “Repudiarei todo mal”[2]. Em ambas as traduções, temos a impressão de alguém disposto a renunciar seus prazeres, a abnegar-se a si mesmo, a afastar-se de tudo o que lhe parecesse mal ou danoso, a ser vigilante, obediente e a repudiar o que for necessário, a fim de manter-se cheio das coisas santas, da presença de Deus, e em retidão no caminho com o Senhor. Ele sabia que o calor de certas atitudes pode até entusiasmar alguns momentos das nossas vidas, mas não pode aquecer eternamente a frieza das nossas almas.

A presença do Espírito Santo, sim, é capaz de nos dar direcionamento em meio ao caos, paz em meio às adversidades, esperança diante das piores perdas, significado em meio ao absoluto vazio. Mas Sua doce presença precisa ser cultivada diariamente, tal como diariamente alimentamos nossos corpos com comida e água. É um grande braseiro aceso, cujo combustível é a oração e a meditação nas Páginas Sagradas.

Jesus, alertando sobre a prudência que devemos ter quanto ao que colocamos diante dos nossos olhos, disse que eles são os caminhos por onde tudo entra em nossas almas[3], isto é, luz ou trevas dentro de nós será um resultado certo, de acordo com aquilo que nossos olhos contemplam e desejam.

A moda ditada pela mídia é a que a maioria de nós também adota. Crianças que passam muitas horas do seu dia em companhia de desenhos animados, tendem a ser violentas e a adotar brincadeiras violentas como diversão. Filhos repetem os gestos dos pais. Alunos imitam as posturas dos seus professores. Quando necessário, motoristas repetem as manobras que viram dar certo. E em todos os casos, os olhos são os pivôs que os induzem a tais comportamentos.

Por isso é que Paulo nos aconselha: “Afastem-se de toda forma de mal”[4]. O mal é sedutor. Sua aparência que, num primeiro momento, incita medo em quem vê, no momento seguinte encanta quem fica muito exposto a ela. E daí é que coube o reforço do apóstolo: “Tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas.”[5]

Concordo com meu amigo que, com certeza, somos resultado daquilo que aceitamos por nossos olhos. E também abaixo minha face, ruborizada pelas aceitações erradas que muitas vezes fiz, e que Deus jamais mereceu. Mas consolo-me com ele no fato de existir um separatismo saudável na vida cristã. Somos orientados pelo Espírito Santo a nos afastar das coisas que podem nos causar males, por mais que elas pareçam maravilhosas e suficientes. E somos fortalecidos por Ele a fazermos as escolhas certas, por mais dolorosas e complicadas que elas pareçam.

No final, tudo dará certo, porque nossos olhos foram direcionados aqui pelo Deus cujos olhos enxergam a eternidade.

  


[1] Salmos 101.3 – ACRF
[2] Salmos 101.3 – NVI
[3] Lucas 11:34-35
[4] 1Tessalonicenses 5.22 – NVI
[5] Filipenses 4.8 – NVI