terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A dor da rejeição


Imagem disponível na Internet.


Dos tipos de tortura a que um ser humano pode ser submetido, creio que o desprezo seja o pior de todos.

Primeiro, porque o desprezo nunca vem sozinho. Antes, arrasta consigo sentimentos de rejeição, de humilhação, isolamento, e submete a pessoa ofendida à uma sensação de insignificância incontida, que causa marcas profundas na sua alma.

Segundo, porque o desprezo mata aos poucos. Retirar o valor de alguém também retira o sentido da sua existência. E, com certeza, é por isso que o desprezo à pessoa humana é tão abominável diante de Deus. Ele, mais do que ninguém, valorizou o ser humano, apesar de todas as imperfeições impressas no seu caráter, apesar de todas as suas fraquezas, apesar de toda a maldade em seu coração, apesar de qualquer coisa. Deus valorizou tanto a pessoa humana - assim mesmo, complicada como ela é - a ponto entregar Seu próprio Filho para salvá-la, sem que ela jamais merecesse (João 3.16).

Certa vez, Jesus declarou: "Qualquer que disser a seu irmão: "Racá", será levado ao tribunal. E qualquer que disser ao seu irmão: "Louco!", corre o risco de ir para o fogo do inferno" (Mateus 5.22). A palavra "Racá" significa "tolo inútil", "idiota", "tonto imbecil", "cabeça oca", isto é, uma forma arrogante de colocar-se superior ao outro e de diminuir o seu valor.

Mas essa atitude ofende ao próprio Deus, que, na verdade, é o autor daquela vida. Por isso, nas palavras de Jesus, o pecado do desprezo merece um juízo severo. Trata-se da expressão declarada de um orgulho pessoal que rejeita a pessoa que Cristo tanto amou a ponto de morrer por ela.

Muitas vezes, o desprezo flui em meio a uma crise, um momento de conflito, e é expressamente manifestado. Acontecia com os escravos, por exemplo. Hoje, com as políticas humanitárias e de inclusão social, a postura desprezadora é mais sutil. Ela aponta prostitutas e diz: "Jesus te ama!", mas é incapaz de lhes dar um abraço. Ela olha com piedade para o mendigo, mas não lhe oferece um lugar à mesa. Ela comenta que Jesus morreu também pelos presidiários, mas concorda com qualquer discurso que considere os presos menos humanos que os livres. (Livres?)

Camuflado pelos nossos belos discursos sobre amor ao próximo, ou amor por uma mulher (ou por um homem), o desprezo age na surdina, em pequenos momentos do dia a dia, numa convivência sem afeto, negando a preferência ao outro, rejeitando-lhe até as demonstrações mais simples de carinho, como um aperto de mão, um e-mail de duas linhas, ou mesmo um pouco de atenção.

A mulher que amou e se entregou, mas não foi igualmente correspondida. O esposo que foi obrigado a dormir fora do leito e vive seu dia sendo evitado pela sua esposa. A criança pobre que não foi aceita no grupo de crianças que pensam que são ricas. O homossexual que virou motivo de chacota na rua onde mora. A mãe que renunciou uma vida inteira pelo bom crescimento dos filhos e tornou-se motivo de vergonha para eles. O faxineiro limpando o chão do hall do elevador de onde sai um alto executivo que nega-lhe até mesmo o olhar. Pessoas portadoras de necessidades especiais vistas como escórias. O que todos eles - e nós também - temos em comum? Conhecem(mos) a dor da rejeição. 

É uma dor de grandeza descomunal. Só quem já sentiu é que sabe o que realmente significa o perverso sentimento cujo primeiro nome é desprezo e o sobrenome é rejeição. Dentre todos os seres humanos que já pisaram na terra, ninguém melhor do que Jesus para compreender isso. E Ele não recebeu somente o desprezo dos homens, mas também o de Deus.

Quando, "à hora nona, Jesus exclamou com grande voz: "Eloí, Eloí, Lamá Sabactâni?", que, traduzido, é: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Marcos 15.34), não era somente o clamor desesperado de um homem sofrendo e prestes a morrer. Era a expressão da absoluta tristeza de um santo que assumiu os pecados de toda a humanidade e viu Deus virar-Se de costas ao olhar tanta podridão junta sobre os Seus ombros. Era a dor profunda de um filho legítimo que, sem merecer, foi, por alguns instantes, desprezível aos olhos do Pai, para que os filhos bastardos fossem por Ele aceitos.

Ninguém melhor que Ele para interpretar quando a tristeza de sentir-se humilhado vier nos dominar. Quem mais poderia nos ensinar como superar a dor da rejeição, se não Aquele que voltou das profundezas da morte, aonde a rejeição dos homens O levou? Quem é mais qualificado para lidar com os nossos corações desprezados, do que o Homem que silenciou o Céu e a terra em reverência à Sua dor, enquanto dava o último suspiro no alto da cruz?

É verdade que o desprezo causa um desconforto horrendo, uma mágoa, um desgosto intenso. Mas não é preciso continuar assim, se sua condição hoje é a de alguém que se sente rejeitado. O Deus que havia rejeitado olhar para Jesus por uns instantes, é o mesmo que enviou Seu Espírito para ressuscitá-Lo dentre os mortos (Romanos 8.11), e que restaura em nós a certeza que o Seu amor por cada pessoa é único, imenso e mais importante que todas as outras coisas.

No entanto, se você é uma pessoa que costuma diminuir o valor de alguém, tecer julgamentos e até condenações, adoecendo vidas ao lançar sobre elas seu mortal desprezo, pondere seus pensamentos, refaça sua escala de valores, reveja seus conceitos.

Mas faça isso olhando para aquela tarde de sexta-feira, sobre o monte Calvário, no momento da crucificação. Mire bem um dos homens crucificados ao lado de Jesus. Ele era um ladrão, mas se arrependeu. Era malfeitor em vida, mas não quis chegar assim à morte, e encontrou perdão na face desfigurada de Jesus. Olhe com cuidado aquela cena, e comova-se ao contemplar o amor e a graça de Deus coroando o desfecho desse glorioso (e surpreendente) mistério. 

Aquele pobre coitado era dos mais desprezíveis homens da terra. No entanto, foi o primeiro de todos a entrar no Reino dos Céus.