quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Braços Abertos


By Elaine Cândida, com imagem disponível na Internet.


"Assim Deus chamou os que havia separado.
Não somente os chamou, mas também os aceitou;
e não somente os aceitou, mas também repartiu a Sua glória com eles."
Romanos 8.30 - NTLH 


Por Max Lucado


Elas não são exatamente aquilo que você poderia chamar de uma lista de “Quem é quem da pureza e da santidade”. De fato, algumas de suas atitudes e excentricidades fariam você pensar na multidão de sábado à noite na porta da delegacia. A pouca glória existe dentro deste bando confuso bem que poderia transmitir um pouco de correção e refinamento. Contudo, por mais estranho que possa parecer, é justamente essa humanidade que torna essas pessoas tão animadoras. Elas são de tal modo estimulantes, que, caso você precise, vai encontrar nelas um lembrete acerca da tolerância de Deus. Se você já perguntou como é que Deus poderia usar você para mudar o mundo, então dê uma olhada nestas pessoas.

Que pessoas? As pessoas que Deus usou para mudar a história. Um amontoado de inúteis e ultrapassados que encontraram esperança não em seu desempenho, mas nos famosos braços abertos de Deus.

Vamos começar com Abraão. Embora elogiado por Paulo por causa de sua fé, este pai de uma nação teve lá suas fraquezas. Tinha uma língua mentirosa que não parava! Certa vez, para salvar seu pescoço, deixou escapar que Sara não era sua esposa, mas sua irmã, o que era apenas meia verdade (cf. Gn 12.10-20). Então, não muito tempo depois, ele repetiu a dose! “Ele dizia que Sara, sua mulher, era sua irmã” (Gn 20.2).

Por duas vezes ele trocou a integridade pela segurança. Isso é o que você chamaria de confiança nas promessas de Deus? Você consegue construir uma nação sobre esse tipo de fé? Deus sim. Deus pegou o que era bom, perdoou o que era ruim e usou a “velha língua comprida” para iniciar uma nação.

Outro nome familiar é Moisés. Definitivamente um dos maiores da história. Mas até os 80 anos, parecia que não seria muito mais do que um príncipe de conto de fadas transformado em fora da lei. Você escolheria um assassino, procurado pela polícia, para tirar um país da escravidão? Chamaria um fugitivo para carregar os Dez Mandamentos? Deus sim. E, dentre todos os lugares possíveis, Deus o chamou em um pasto de ovelhas. Chamou seu nome em meio a um arbusto em chamas. Assustado, o velho Moisés caiu das próprias pernas! Ali, com joelhos tremendo e a frase “Quem, eu?” estampada no rosto, Moisés concordou em voltar ao ringue.

E o que se pode dizer de um cara cujo desejo foi tão forte que engravidou uma mulher, tentou responsabilizar o marido dela, provocou a morte desse marido e, então, tocou a vida como se nada tivesse acontecido? Bem, você poderia dizer que ele foi um homem segundo o próprio coração de Deus. Havia poucos atrativos na ficha de Davi, mas o espírito de arrependimento desse sujeito era inquestionável.

Então, vemos Jonas. O embaixador de Deus para Nínive. Jonas, porém, tinha outras ideias. Não tinha vontade nenhuma de ir para aquela cidade bárbara. Assim, embarcou em outro navio enquanto Deus não estava olhando (ou pelo menos era isso que ele achava). Deus o colocou na barriga de um grande peixe para fazê-lo voltar à razão. Mas nem o peixe teve estômago para aguentar aquele missionário por muito tempo. Um belo arroto, e Jonas saiu voando sobre as ondas e chegou à praia, de olhos arregalados e arrependido. (O que apenas mostra que não se pode manter um bom homem por baixo.)

E assim as histórias se sucedem: Elias, o profeta amuado; Salomão, o rei que sabia demais; Jacó, o negociante espertalhão; Gômer, a prostituta; Sara, a mulher que riu de Deus. Uma história após outra, Deus usa o melhor do homem e supera o pior.

Mesmo a genealogia de Jesus está salpicada de um ou dois personagens de caráter duvidoso – Tamar, a adúltera; Raabe, a meretriz; e Bate-Seba, que gostava de tomar banho em lugares questionáveis.

A lição reconfortante é clara. Deus usou (e usa!) pessoas para mudar o mundo. Pessoas! Não santos, super-humanos ou gênios, mas pessoas. Malandros, safados, amantes e mentirosos – Ele usa a todos. E aquilo que eles podem não ter em termos de perfeição, Deus compensa em amor.

Jesus, mais tarde, resumiu o amor obstinado de Deus por meio de uma parábola. Ele falou sobre um adolescente que decidiu que a vida na fazenda era lenta demais para o seu gosto. Assim, com o bolso cheio de dinheiro da herança, saiu para encontrar grande sucesso. Em vez disso, o que encontrou foram ressacas, amigos de boas horas e longas filas de desempregados. Quando achou que já tinha vivido tempo demais naquela vida de porco, engoliu seu orgulho, enfiou as mãos bem fundo nos bolsos vazios e iniciou a longa jornada de volta para casa. Passou o caminho todo ensaiando um discurso que planejava fazer para seu pai.

Nunca o usou. Assim que chegou ao topo da colina, o pai, que estava esperando no portão, o viu. As palavras dessa desculpa do rapaz foram rapidamente abafadas pelas palavras de perdão do pai. E o corpo cansado do rapaz caiu nos braços abertos do pai.

Os mesmos braços abertos que lhe deram boas-vindas foram os que deram boas-vindas a Abraão, Moisés, Davi e Jonas. Nada de dedos no nariz. Nada de punhos cerrados. Nada de tapas acompanhados de “Eu avisei!” ou perguntas como “Por onde é que você andou?”. Nada de braços cruzados. Nada de olhos roxos ou lábios inchados. Não. Apenas braços abertos com doçura. Se você já pensou como é que Deus pode usá-lo para fazer diferença no seu mundo, simplesmente olhe para aqueles a quem Ele já usou e anime-se. Olhe para o perdão encontrado naqueles braços abertos e tenha esperança.

E, a propósito, aqueles braços nunca estiveram tão abertos como quando estavam numa cruz romana. Um braço se estendendo para trás na história e outro, na direção do futuro. Um abraço de perdão oferecido para todo aquele que o buscar. Uma galinha reunindo seus pintinhos. Um pai recebendo os seus. Um redentor redimindo o mundo.

Por isso O chamam Salvador.


Disponível em LUCADO, Max. Por isso O chamam Salvador. 
São Paulo: Mundo Cristão, 2014. Cap. 22, Págs. 109-112.