domingo, 8 de março de 2015

Heróis de joelhos



By Elaine Cândida, com imagens disponíveis na Internet.


Eu conheço a Elis. Mulher de garra, opiniosa, durona. Mais razão que emoção, ousada, determinada. Um exemplo de submissão a Deus, e um modelo de serva dedicada ao seu Senhor. A Elis enfrentou lutas terríveis, muitas das quais eu acompanhei de perto. Mas enquanto eu, que jamais me aproximei de tais adversidades, tinha apenas um ombro amigo para oferecer e uma palavra de ânimo para liberar, a Elis glorificava a Deus no meio da tormenta da sua vida, e consolava quem tentavam lhe consolar.

Mesmo quando tinha de cozinhar num fogão de tijolos e gravetos, improvisado no quintal da sua casa, pelo fato de seu esposo (in memoriam) ter trocado das suas bíblias aos talheres da casa por drogas, tal circunstância não fez Elis abrir seus lábios para murmurar. Antes, como uma santa mulher de oração, ela sempre deixou claro a todas as pessoas ao seu redor qual era o segredo da sua força: Elis é uma guerreira acostumada a vencer intensos combates de joelhos.

Eu também conheci o Mendes (in memoriam). Homem humilde, trabalhador, um batalhador incansável diante das tantas desilusões e desafios que a vida lhe trouxe. Dedicado à família, apaixonado pela Igreja, convicto do seu chamado, decidido a obedecer. Mendes foi um homem que deixou um sutil legado: A dependência de Deus é o caminho dos sábios, e nada impressionará tanto os Céus como uma vida que prossegue à sombra do Senhor.

Mendes sofreu uma traição, enfrentou um divórcio e perdeu o contato com os filhos, depois que mudou-se para o outro lado do país. Sem contar as muitas outras tribulações a que foi submetido, Mendes ainda foi vítima de um câncer raro, pouco conhecido e incurável pela ciência humana. Pouco mais de um ano com aquele tumor enraizado no seu corpo foi tempo suficiente para cessar sua vida. Porém, quem lhe acompanhou de perto nessa triste trajetória, testemunha com brilho de alegria nos olhos que Mendes nunca murmurou em meio ao seu infortúnio. Antes, o que para muitos parecia uma desgraça, para ele era a graça acelerando a sua ida para o Céu. Qual era o segredo da sua força? Bem, Mendes era outro guerreiro acostumado a vencer intensos combates de joelhos.

E eu conheço o Beto, um homem que aprendeu a ser rico em meio às muitas perdas materiais que sofreu. Tornou-se grande quando seus recursos minguaram. Fortaleceu-se no Deus invisível para vencer o improvável e alcançar o desconhecido, guardando a esperança que somente se encontra no coração de um verdadeiro adorador.

O Beto é um trabalhador honesto, temente a Deus, quebrantado de coração e contrito nas suas escolhas. Aprendeu a depositar suas fraquezas aos pés Daquele que mesmo morrendo numa cruz foi capaz de vencer o inferno e a morte.  Não fosse pela companhia do seu cãozinho, Beto estaria absolutamente só numa das fases mais críticas da sua vida, em que enfrentou o distanciamento daqueles que eram seus amigos apenas enquanto suas condições financeiras eram agradáveis para eles.

Ele também foi vítima da incompreensão dos seus familiares, que nunca acreditaram no chamado divino que faria de Beto um grande obreiro do Senhor e, por isso, faziam dele objeto de humilhação e de zombaria. Mesmo assim, Beto suportou e esperou com paciência no Senhor, lançando todas as suas tristezas sobre Ele e mantendo o bom testemunho de um verdadeiro cristão que semeia a graça por onde passa. Você quer conhecer o segredo do Beto? Bem, ele também é mais um dos guerreiros acostumados a vencer intensos combates de joelhos.

São histórias de pessoas comuns, mas extraordinárias. Pessoas que encontraram a luz de Cristo e jamais se desviaram dela, mesmo quando a vida parecia estar tomada pela escuridão dos momentos difíceis. Nenhuma delas deixou de chorar, mas nenhuma delas deixou de agradecer ao Deus que dá e que também toma[1]. Todas elas experimentaram o sofrimento, mas mesmo nas profundezas do silêncio de quem é submetido a provações extremas, essas pessoas souberam identificar propósitos do Altíssimo e continuaram amando-O por quem Ele é.

Esses filhos de Deus sofreram danos, mas aprenderam a desenvolver a resiliência. Nas suas muitas aflições não perderam o foco. Heróis anônimos cujos exemplos servem de aio para quem quiser seguir as pegadas dos verdadeiros adoradores. E na sua simplicidade, tornaram-se grandes, porque são guerreiros acostumados a vencer intensos combates de joelhos.





[1] Jó 1.21