terça-feira, 26 de maio de 2015

A mais cara oferta


Pintura de Amy Pectol. Disponível na Internet.

"E este é o mistério: 
Cristo no coração de vocês é a esperança da glória."
Colossenses 1.27


Em 2014, a OCK TV produziu, como parte de uma série de vídeos com experiências sociais, um episódio interessante sobre solidariedade, denominado Asking strangers for food (Pedindo a estranhos por comida).

O vídeo de pouco mais de três minutos de duração foi gravado nas ruas de Nova Iorque (EUA), e apresenta um jovem ator, supostamente com fome e pedindo comida a estranhos, aleatoriamente. O detalhe importante - e que também é a grande constatação dessa experiência -, é que pessoas que estavam fazendo seus lanches habituais e que tinham condição financeira aparentemente estável, não estavam dispostas a compartilhar do seu alimento. Após várias tentativas, o jovem somente obteve êxito quando pediu comida a um homem de idade média, aparentemente desiludido da vida, sentado num canto da rua, acostumado a passar necessidades, e que havia ganhado uma pizza de outro rapaz (também ator). O homem que sabia o que era ter fome e não ter o que comer foi a pessoa que soube compartilhar do pouco alimento que conseguiu.

Trata-se de um vídeo que denuncia a real condição dos corações dos homens. A exemplo da viúva pobre observada por Jesus no templo, o homem, "na sua pobreza, deu tudo o que tinha para viver" [1]. Creio que, assim como Jesus enxergou com emoção a nobreza no gesto da menor pessoa daquele lugar, os olhos de Deus brilham quando contemplam alguém compartilhando das suas necessidades, com o pouco que tem.

É que Deus é o Dono do ouro e da prata [2], o Criador de todo o universo [3], o Rei de toda a terra e Senhor de toda glória [4], o detentor de toda autoridade, domínio e poder [5], o Deus Eterno [6]. Ele não precisa das nossas ofertas. Ele não precisa do nosso dinheiro. Ele não precisa nem mesmo de nós. Mas Ele nos ama assim, como somos, e deseja estar conosco todos os instantes, apesar de toda a nossa incapacidade, apesar de todas as nossas imperfeições, apesar de nós mesmos.

"O Senhor não dedicou Seu amor a vocês, nem os escolheu por serem mais numerosos do que os outros povos, pois, na verdade, vocês eram o menor de todos os povos. Mas foi porque o Senhor os amou e para cumprir a palavra que deu a seus antepassados.[...]" (Deuteronômio 7.7-8 - Viva)

"Vocês não escolheram a Mim! Eu é que escolhi vocês! [...]" (João 15.16 - Viva)

"Nós O amamos porque Ele nos amou primeiro." (1João 4.19 - NVI)

E é por isso que nada do que fizermos, por maior que pareça diante dos homens, impressionará a Deus, se nosso interesse é, de fato, receber elogios e reconhecimento das pessoas. Ao contrário, quando nossa entrega é desprovida de interesses pessoais, quando nossos corações se dispõem a fazer o bem sem desejar nada em troca, isso chama a atenção de Deus e alegra o Seu coração, precisamente porque Ele vê repetir-se em nós o mesmo gesto altruísta e amoroso Dele mesmo, que entregou Seu Filho amado para nos fazer o bem que jamais merecemos.

Jesus foi comovido pela grandeza no coração da pobre viúva, que deu somente o que tinha sem requerer glórias para si. Era como um prenúncio do gesto sublime que Ele mesmo faria por todos nós dentro de mais alguns dias. Jesus, enquanto homem, não tinha dinheiro, diplomas, cargo importante. Suas sandálias eram gastas, suas roupas surradas, seu corpo sujeito às mesmas indisposições que nós. Sua família era humilde, seu ofício era comum - marceneiro -, seu ministério era materialmente pobre: Barcos e jumentinhos que O transportavam eram emprestados, colinas e ruas eram suas salas de aula, e até o túmulo onde foi colocado o Seu corpo após Sua crucificação foi doado.

Tudo o que Jesus tinha para nos dar era Sua vida, e foi exatamente isso que Ele nos deu. No lidar diário com os homens, Ele conheceu a maldade e o vazio dos seus corações. No alto da cruz, Ele sentiu o desprezo de Deus por causa dos nossos pecados. Ninguém melhor do que Ele para saber o quanto somos carentes de Deus e da vida que somente Ele pode nos dar. E por isso mesmo o Senhor não hesitou em doar a Sua vida em troca da nossa.

Hoje, nossas atitudes para fazer o bem não precisam ser tão extremas. Jesus somente espera que não tenhamos apego nenhum a nada desse mundo mais do que temos pelas pessoas. Um pedaço de pão, um copo de leite, uma fatia de pizza, uma moeda. Nada disso nos empobrecerá mais se for compartilhado com quem precisa. Mas um pouco de atenção, uma palavra de exortação ou de direcionamento, uma oração intercessora, um gesto de carinho, o amor escondido por trás da ação de compartilhar solidariamente do pouco que se tem, qualquer dessas coisas pode mudar uma vida e apresentar Jesus a ela.





[1] Lucas 21.1-4
[2] Ageu 2.8
[3] Gênesis 1.1; Romanos 11.33-36
[4] Salmos 47.1-2, 24.7-10
[5] 1Crônicas 29.11-14
[6] Salmos 90.1-2