sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Pardais pelo caminho...


Imagem disponível na Internet.

“E os que não deram valor a um começo tão humilde vão ficar alegres
quando virem Zorobabel terminando a construção do Templo.”
Zacarias 4.10

Atrasada, passos firmes, destino certo, minutos contados. Assim ia eu nesta manhã, rumo ao meu trabalho, atenta ao movimento de carros e pessoas, cautelosa nos cruzamentos, por uma caminhada de cerca de quinze minutos.

Pensamentos coordenados e fixos numa certa inquietação do coração, que se dispersou quando meus pés cruzaram com um pardalzinho pelo caminho. Hábil caçador de vermes e ciscos orgânicos, esse ser tão pequenino e gracioso cumpria mais um dia da sua efêmera existência saltitando numa velha calçada pública, torta e esburacada quando, sem querer, alegrou a manhã de uma passante apressada.

Gosto sempre de recordar como é interessante a maneira como pequenos eventos da vida dão um sentido todo especial à nossa história. Não desprezo os grandes acontecimentos, mas na simplicidade é que está a magnitude de cada dia. Acontece que nem sempre essa beleza vem em pequenas caixinhas forradas com tecido, com um lacinho de fita de cetim e coraçõezinhos de sabonetes perfumados. Ela pode ter apenas a graça de um pardal procurando comida meio distante do ninho, passeando solitário por uma via cheia de pés e pernas apressados, nervosos e, quase sempre, insensíveis.

Não chamava atenção de quase ninguém, afinal, quase todos os transeuntes no centro de uma cidade grande estão acostumados a verem (ou a ignorarem) pardais aos montões, misturando suas cores neutras aos tons acinzentados dos edifícios, todos os dias, quase todas as horas enquanto durar o sol. Longe de esbanjar manchas encantadoras com as cores vivas daquelas de araras e tucanos, os pardais carregam manchinhas de tons de cinza ainda mais fortes ou mais claros, às vezes, amarronzados... Tampouco têm a elegância de um flamingo, a exuberância de uma ave-do-paraíso, ou a altura de um pelicano. Contudo, na sua pequenez e singeleza de cores, os pardais podem colorir a uma manhã meio desbotada de alguém que corre para mais um compromisso, quase sem tempo para contemplar pequenas grandes belezas da vida.

Que bom que Deus usa da simplicidade para falar com gente tão limitada de entendimento quanto nós! O lembrete desta manhã foi óbvio: Enquanto nos preocupamos com festas de casamento, com dívidas e compromissos,com agendas cheias e grandes conquistas, corremos em busca de grandes casas e bons empregos, devemos estar atentos aos pardais que passam daqui para ali em nosso caminho. 

Um amigo com um conselho necessário que, às vezes, insistimos em rejeitar. Um telefonema de um pai preocupado, que quase sempre, parece mais é nos constranger. Um folheto com mensagem bíblica e o endereço de uma igreja, a nós entregue por um cristão interessado na nossa salvação, e que muitas vezes guardamos impulsivamente sem ler. Um livro com que nos presentearam num momento de aflição, e que nós engavetamos ou esquecemos num canto da casa. Um diálogo que encerramos antes do tempo ou evitamos ter quando era necessário. Pardais cruzando pelo caminho. Palavras de consolo e ânimo que podem ter sido caladas pela nossa impaciência. Feixes de esperança que se apagam ao soprar dos ventos da nossa arrogância. Cadeias que ainda não se romperam em nós porque nosso orgulho tem sido maior que nosso interesse de sermos felizes.

A Bíblia frequentemente celebra coisas pequenas. A moeda da viúva em vez dos grandes depósitos dos ricos [1]. O menino Davi em vez do gigante Golias [2]. Os trezentos homens de Gideão e não os trinta e dois mil soldados de guerra do exército inimigo [3]. Cinco pães e dois peixes para alimentar uma multidão, em vez de um fato banquete no deserto [4]. O carpinteiro de sandálias pregando nas praias da Galileia em vez do imperador assentado sobre o trono da poderosa Roma [5]. Os doze trabalhadores, pecadores brutos e indoutos, em vez da alta cúpula eclesiástica de Jerusalém. A cruz em vez da glória.

Olhar com a humildade de uma criança e o coração aberto como um amante para um desses pardaizinhos em nosso caminho, pode restaurar a nossa sorte. Pode trazer o sentido à vida, que grandes conquistas não conseguem dar. Pode ser uma resposta que gurus e mestres nunca puderam nos dar. 

Portanto, alegremo-nos com os pardais pelo caminho, com a beleza das pequenas coisas também e não somente com a imponência das grandes, pois, parando grandes tempestades Deus mostra Sua glória, mas é derramando as suaves gotas de orvalho que Ele revela Sua graça dando manutenção à vida.

[1] Marcos 12.41-44
[2] I Samuel 17.32
[3] Juízes 7.7
[4] Mateus 15.32-39
[5] Lucas 5.1-15