terça-feira, 11 de agosto de 2015

Quando a religiosidade fala mais alto que o amor...


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Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não faz, comete pecado.”
Tiago 4.17


Ontem, uma pessoa muito querida esteve aqui, em minha casa. Por causa dos muitos problemas que vem enfrentando sozinha, essa pessoa – que já tentou suicídio, no passado – tem andado muito ansiosa e infeliz, com sua alma muito angustiada, e tem lutado contra uma depressão profunda.

Quase ao mesmo tempo, uma colega de faculdade veio me visitar. Enquanto eu subia as escadas com essa colega rumo ao meu apartamento, eu disse-lhe que sua visita veio em tempo oportuno, pois havia alguém na minha sala precisando muito de uma oração. Essa colega é membro da Congregação Cristã do Brasil, também conhecida como a Igreja do véu.

Como não estava com seu véu na bolsa, a irmã simplesmente recusou-se a fazer uma oração pela pessoa que necessitava. Eu disse-lhe que isso era o cúmulo da religiosidade, mas após fazer um lanche e receber uma sacola de doações, ela preferiu ir embora rapidamente e sem orar, a abençoar uma vida que é muito carente das intercessões dos santos, simplesmente porque não tinha um pedaço de pano com que cobrir sua cabeça. Sem contar que ela não disse nem mesmo um “amém” quando eu a cumprimentei com “A Paz do Senhor”, na sua chegada.

Atitudes como essa – além de aumentar minha decepção para com a igreja espiritualmente falida que se fundamenta em doutrinas de homens e que está em todas as denominações do mundo inteiro – me fazem refletir sobre o legalismo que é imperativo nos corações de muitos religiosos.

Certa vez, sendo pressionado por fariseus sobre a atitude dos discípulos de colher espigas para comer, num dia de sábado, Jesus respondeu: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” [1]. Em outras palavras, o sábado não é um amuleto da sorte, assim como o véu também não é. Contudo, a tradição judaica fortaleceu tanto a guarda do sábado, a ponto de torná-lo mais importante que o próprio ser humano e suas necessidades vitais, como alimentar-se, por exemplo. O fardo da religiosidade se tornou intolerável, e Jesus precisou realçar que o propósito de Deus para o homem ao instituir o sábado como dia santo era a sua restauração espiritual, física e mental, e não a sua escravidão.

Na mesma passagem, narrada por Mateus, prestes a curar um homem da mão mirrada, Jesus leva os fariseus a refletirem: “Qual de vocês, se tiver uma ovelha e ela cair num buraco no sábado, não irá pegá-la e tirá-la de lá? Quanto mais vale um homem do que uma ovelha! Portanto, é permitido fazer o bem no sábado” [2]. Creio que minha colega de faculdade merecia escutar: “Quanto mais vale um homem do que um véu! Portanto, é permitido fazer o bem sem que se use um lenço na cabeça.

Não encontro base bíblica para obrigar uma mulher a usar véu para orar, primeiro porque a própria Bíblia se explica, ao dizer que “a própria natureza das coisas lhes ensina que é uma desonra para o homem ter cabelo comprido, e que o cabelo comprido é uma glória para a mulher”, motivo pelo qual “o cabelo comprido foi lhe dado como manto” [3]. Além disso, insistir nessa doutrina é o mesmo que afirmar que somente as orações das mulheres que usam véu são aceitas por Deus, tal como que as orações de todas as mulheres que não viviam nessa doutrina antes dela ser criada também foram desonrosas ao Senhor. Isso, sem mencionar que textos sem contextos tornam-se pretextos para heresias, ou seja, tal doutrina, baseada em trechos isolados da primeira carta de Paulo, desconsidera todo o contexto da mesma, que gira em torno de orientações diversas aos cristãos que, como nós ainda hoje, enfrentavam problemas da prática cristã na Igreja, como imaturidade, instabilidade, divisões, ciúmes e inveja, causas na justiça, dificuldades conjugais, imoralidade sexual e mau uso dos dons espirituais [4].

Não aprofundarei a discussão sobre o que a Bíblia fala ou deixa de falar sobre o uso do véu. A questão aqui é refletir sobre o que é mais importante: Abençoar uma vida com oração ou usar um véu? A bíblia expressa claramente que “aquele, pois, que sabe fazer o bem e não faz, comete pecado” [5]. Um véu pode tornar-se empecilho entre um servo de Deus e a prática do bem? (O fato na minha casa, ontem, provou que sim!) Sabendo que “a oração feita por um justo pode muito em seus efeitos” [6], não convém aos justos do Senhor interceder por corações inquietos, por vidas que carecem da Paz que orações quebrantadas podem lhes trazer, estejam estes servos usando véu ou não?

Talvez, aquela oração não fosse a salvação de uma vida, mas bem poderia ser uma porta de paz para ajudá-la neste processo. De igual forma, talvez fosse, sim, a oração que levaria aquela vida espiritualmente debilitada à presença de Deus e, assim, promovesse mais um encontro para o começo de uma grande restauração.

Por isso, fica aqui um apelo aos filhos de Deus: Não sobreponham usos e costumes, doutrinas ou tradições acima do valor de uma vida. Não permitam que o legalismo cegue o vosso entendimento a ponto de fazê-los desvirtuarem-se do real propósito de vossas existências, que é serem “filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada, na qual vocês brilham como estrelas no universo, retendo firmemente a palavra da vida”[7].

Se a religiosidade se sobrepuser à santidade, se o legalismo falar mais alto que o amor, se o apego pelas tradições for maior que o valor dado ao ser humano, o mundo jamais verá “Cristo em vocês, a esperança da glória” de Deus para os cativos que necessitam encontrar-se com a salvação [8].

Além disso, não é a um véu, ou ao sábado, ou à saia, ou a qualquer outra coisa, que se deve a graça de Deus ouvir e atender às nossas orações. Não é em sacrifícios, ou em holocaustos, ou em tradições, ou mesmo em doutrinas que Deus Se agrada. “Os sacrifícios que agradam a Deus são um espírito quebrantado”. A um coração quebrantado e contrito Deus não desprezará! [9]

Muito mais do que um véu de tecido cobrindo nossas cabeças ao orarmos, Deus quer ver em nós sinceridade, pureza, contrição e quebrantamento. A real conversão dos nossos corações é o caminho pelo qual o Céu abraça a terra e modifica circunstâncias, quando dobramos nossos joelhos para orar.



[1] Marcos 2.27 – NVI
[2] Mateus 12:11-12 – NVI
[3] I Coríntios 11.15 – NVI
[4] Introdução: I Coríntios – Bíblia de Estudos NVI. Kenneth Barker (org.). São Paulo: Ed. Vida, 2003.
[5] Tiago 4.17 – ACRF  
[6] Tiago 5.16 – ACRF  
[7] Filipenses 2:15-16 – NVI
[8] Colossenses 1.27 – NVI
[9] Salmos 51:16-17 – NVI